JEAN-PAUL
BOURRE
OS VAMPIROS
(1986)
PUBLICAÇÕES
EUROPA-AMÉRICA
PRIMEIRA
PARTE
O
Vampirismo, uma doença de alma
Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a
vida eterna, outros para a ignomínia, para a reprovação eterna.
DANIEL (XII 1-3)
Segundo as lendas e as
crenças o vampiro seria uma criatura da noite, um não morto absorvendo a
vitalidade dos vivos para escapar ao túmulo. Construiria dessa forma uma
espécie de imortalidade mágica na região das trevas, que separam a vida da morte.
Os vampiros existiram?
Processos verbais e crônicas do século XVIII são explícitos. No
decorrer de certas exumações, sob o controlo das autoridades locais,
desenterraram-se cadáveres em perfeito estado de conservação: «O corpo não
libertava qualquer cheiro, tinha sim, pelo contrário, mantido o seu estado de
frescura sem que apresentam-se o mínimo sinal de decomposição. O sangue que
saía da boca do cadáver era tão fresco como se de uma pessoa sã se tratasse. O
cabelo, a barba e as unhas tinham crescido e a pele começava a separar-se do
corpo, enquanto uma nova se formava. O rosto, as mãos, os pés, estavam
igualmente conservados.» (Asfeld, 1730.)
Na maior parte dos casos; neste tipo de sepulturas (contrastando com
as outras) registram-se tenebrosas vibrações. Fazem-se na aldeia o levantamento
de muitas e misteriosas mortes, ocorridas na proximidade do cemitério. Animais
degolados, homens e mulheres exangues, crianças mortas por debilidade e outros
tantos casos de enlouquecimento.
Os agentes da polícia e os religiosos encarregados de fazer o
inquérito dirigiram-se por fim ao cemitério, como era inevitável!
Os túmulos são abertos e o coração do cadáver é trespassado com o
auxílio de uma estaca, a cabeça cortada à machadada e o caixão cheio de cal
viva. Processos verbais, são redigidos e assinados pelos oficiais do rei e
autenticados pelas autoridades locais.
Em 1776, D. Agustin Calmet, padre beneditino e abade de Senóvia,
redigiu o seu Tratado sobre as aparições dos espíritos,
reencarnações, anjos, demônios, e vampiros da Silésia e da
Morávia, dedicado ao príncipe Carlos de Lorena, Bispo d’Olmütz.
Relata-nos ele: «Citam-se e ouvem-se testemunhas, examinam-se
situações, observam-se os corpos exumados procurando sinais vulgares, como a
mobilidade, a flexibilidade dos membros, a fluidez do sangue, a
incorruptibilidade do corpo. Se tais pormenores forem na verdade observados
concluir-se-á que são eles quem molesta os vivos, pelo que são entregues ao
carrasco a fim de que ele os queime.» E mais adiante, adverte do perigo que
paira: «Este mal que espalha o terror, castiga particularmente a Hungria, a
Polônia, a Silésia, a Morávia, a Áustria e a Lorena. Quem de- le nos livrará,
pois não deixará de aumentar caso não se puser cobro a tal situação?»
E conclui por fim: «No meio de tudo isto, não vejo senão trevas e
dificuldades, cuja solução deixo aos mais hábeis e ousados.»
Superstições, alucinações, lendas ou presenças autênticas vindas de
além túmulo? A caça está aberta...
Quando se estuda o vampirismo pode dizer':"se que se trata de uma
via tenebrosa, de um culto da noite cuja divindade central seria o não morto
visto que o vampiro cultiva a sua personalidade demoníaca. Ele ama o seu
próprio corpo e tenta, por todos os meios mágicos, evitar a sua desintegração.
Os adeptos deste culto mudam de nome segundo as regiões, os dialetos,
os costumes. O jesuíta Gabriel Rzazcynsi explica em 1 721: «Há mortos que mesmo
no túmulo conservam a avidez de devorar e que, à boa maneira dos espectros,
fazem as suas vítimas pela vizinhança; os polacos dão-Ihe o nome especial de Upiers
e Upiercza. A Europa central foi, durante muito tempo, o feudo
destes senhores da.noite, capazes de interromper o processo de decomposição do
corpo, suspensos entre a vida e a morte nessas zonas de obscuridade que as
antigas religiões povoavam de diabos, de demônios.
Nas províncias da Alemanha, em Hasse, Wurtenberg, Brunswick,
afirmava-se que o cadáver-vampiro, uma vez saído do caixão, tinha o poder de se
transformar em ave noturna e voar durante a noite à procura das suas vítimas.
Mais perto de nós, o professor Vukanovic assinalou danos causados
pelos vampiros na Sérvia, nos anos de 1933,1940, 1947 e 1948, principalmente na
província de Kosovo-Motohija.
Em 1970, o feiticeiro inglês David Farrant foi condenado, sem apelo
nem agravo, a cinco anos de 'prisão por violação e profanação de sepultura. E
no prosseguimento de numerosos testemunhos acerca de uma «presença» no
cemitério de Highgate, no Norte de Londres, que Farrant e os seus adeptos
tentaram um ritual de invocação do vampiro. Os jornais ingleses seguiram esta
rocambolesca aventura durante várias semanas. Falou-se no caso de um caixão
arrombado, de um cadáver decapitado por Farrant, de símbolos mágicos pintados
sobre as sepulturas, de obsessões, de pesadelos que apavoravam os habitantes de
Highgate, de animais degolados pelas veredas do cemitério, etc.
Assim o vampirismo, que tem como figura principal a sombria e
arrogante figura do famoso príncipe Drácula – embora estejamos longe das
epidemias vampirescas dos séculos XVIII e XIX –faz sempre os seus discípulos.
Propõe um método para vencer a morte, utilizando o fascínio e o desejo, jogando
com o medo e a obsessão. E uma espécie de espiritualidade contraditória que
procura evitar a decomposição do corpo, mantendo os instintos e os impulsos
selvagens do homem para além túmulo. O oposto às espiritualidades libertadoras
que partem as amarras e comunicam ao homem o sentimento de eternidade, a união
com Deus.
A magia negra do vampiro permitiria obter uma eternidade fictícia, uma
espécie de estado letárgico intermediário. O vampirismo seria uma doença da
alma.
Para Siméon le Nouveau Théologien – eremita do século X – só a
perfeição espiritual permite vencer o túmulo e libertar-se do tempo e da morte,
escreve ele nos seus Capítulos Teológicos: «Morre sem na verdade morrer
todo aquele que atingir a perfeição, porque viva em Deus, ao qual está unido,
como que tendo deixado de viver em si próprio.»
Na outra extremidade, Stanislas de Guaita, esoterista e mestre da
Ordem Cabalística de Rosa-Cruz, declara: «Proceder aos ri tos sanguinários num
túmulo entreaberto, agrava talvez a situação: é sugerir à alma embaraçada ainda
nas peias magnéticas do cadáver a tentação de se manter assim, é estender-lhe o
cálice do abominável vampirismo.»
As leis do sangue
O vampirismo está sempre associado a um drama, uma maldição, uma
doença psíquica hereditária. Na epopéia negra e vermelha dos vampiros apareciam
casais amaldiçoados, homicidas megalômanos tais como o príncipe VIad Drakul,
grandes famílias atingidas por um mal misterioso, como os Bathory ou os Cillei
na Romênia do século XV.
Todos eles fascinados por uma espécie de vontade mórbida, rapidamente
transformada em neurose, em obsessão. Cultivam desejos dos mais perturbadores,
tais como Bárbara Cillei e seu irmão partilhando da mesma cama ou VIad Drakul
empalando os seus prisioneiros e fazendo-se servir de faustosas refeições,
entre cadáveres suspensos de lanças e piques.
Vive-se febril e loucamente a sexualidade e a morte. O leito nupcial
torna-se fúnebre pelas maldições e juramentos terríveis nele feitos.
«Voltarei!...» Uiva Bárbara Cillei antes de morrer. Herman, seu irmão, invocará
os demônios da antiga magia para que a irmã ressuscite. As crônicas romenas da
região da Transilvânia afirmam que o êxito teria sido completo. Bárbara Cillei
saiu do túmulo visitando o castelo de Varazdin, onde tem a sua sepultura.
Coincidências ou epidemias diabólicas? Em 1936, na aldeia de Kneginecc – perto
de Varazdin – várias pessoas novas, rapariguitas, pereceram de maneira
estranha. «Algumas morreram em poucas semanas, em dois ou três meses no máximo,
sem se lhes conhecer qualquer doença. Todas tinham sobre a garganta duas ou
três manchas azuladas. Muitos destes jovens acordavam durante a noite atormentados
por horríveis pesadelos.»
O ritual do exorcismo praticou-se nas ruínas de Varazdin por um
sacerdote ortodoxo da igreja do Oriente. Rapidamente pararam as manifestações.
Dizem os velhos de Kneginec que o Grande Exorcista libertou a aldeia, mas
ninguém esclarece se os restos mortais de Bárbara Cillei, morta no século XV,
foram ou não exumados.
Os processos verbais que relatam os fenômenos vampirescos
demonstram-nos através de que mecanismos o não morto se propaga e contamina
quantos leiam. Citemos por exemplo o inquérito conduzido pelo tenente Buttner,
do regimento de Alexandre de Vurtemberga, a 7 de Janeiro de 1732, o Visum et
Repertum, que intrigou Luís XV e o duque de Richelieu:
«Tendo ouvido dizer por mais de uma vez que na aldeia de Medwegga, na Sérvia,
os pretensos vampiros provocavam a morte de muita gente sugando-lhes o sangue,
recebi a ordem e missão, através do comando superior de Sua Majestade, para que
o caso fosse esclarecido beneficiando, para questão de inquérito, do apoio de
oficiais e de dois Unterfeldscherer.
»Perante o capitão da Companhia de Heiduques Gorschitz, Heiduck,
Burjaktar e os outros heiduques mais antigos do local, examinamos os
fatos. Estes, logo que interrogados, nos relataram unanimemente um caso
ocorrido, havia cinco anos, com um heiduque da região (um heiduque é
um membro da nobreza local) chamado Arnold Paul que ao cair do carro de feno
partira o pescoço. Mais tarde, passados alguns anos, teria contado repetidas
vezes ter sido vítima de um vampiro, perto de Casanova, na Pérsia turca.[1][1]
»Teria por esse fato resolvido comer alguma terra no túmulo de um
vampiro, esfregando-se com o sangue do mesmo, uma vez ser voz corrente evitar
assim a maléfica influência. Todavia, vinte ou trinta dias após a sua morte
havia gente a queixar-se que Arnold Paul os atormentava, chegando mesmo a matar
quatro pessoas. Para que se acabasse com este perigo, o heiduque aconselhou
os habitantes dessa região a desenterrarem o vampiro e assim foi, quarenta dias
depois da morte deste. Encontraram-no em perfeito estado de conservação;
a carne não decomposta, os olhos injetados de sangue fresco que também
escorria do nariz e dos ouvidos, sujando-lhe a camisa e a mortalha. As unhas
das mãos e pés estavam soltas, e novas unhas cresciam em seu lugar, pelo que se
concluiu tratar-se de um arqui-vampiro. Assim, segundo a norma do sítio,
atravessaram-lhe o coração com uma estaca.
»Mas enquanto se procedia a esta ação, jorrou do corpo uma enorme
quantidade de sangue, acompanhada de um lancinante grito. Nesse próprio dia foi
queimado, e as cinzas lançadas ao túmulo. Aquela gente afirmava que as vítimas
dos vampiros transformam-se, por sua vez, em vampiros. Por tal razão se decidiu
proceder da mesma forma para com os quatro corpos atrás referidos.
»O caso não ficou por aqui porque o dito Arnold Paul atacara não só
pessoas mas também gado!
»Aqueles que diziam ter comido carne de animal contaminado e que disso
vieram a morrer ficaram presumíveis vampiros, tanto que no espaço de três
meses, (em dois ou três dias) sem nenhuma doença previamente detectada,
pereceram dezessete pessoas das idades mais diversas.
»Heiduque Joika faz saber que a sua nora, Staha Joica, tendo-se
deitado quinze dias antes de perfeita saúde, soltou durante a noite um grito
medonho, acordou em sobressalto tremendo de medo, queixando-se de ter sido
ferida no pescoço por um homem, filho do heiduque Milloe, que morrera
havia quatro semanas. Desde então definhando hora a hora, morria oito dias
depois.
»Por todas estas coisas nessa mesma tarde, depois de ouvidas as
testemunhas, fomos ao cemitério acompanhados pelo heiduque da aldeia,
para que se abrissem os túmulos suspeitos e se observassem os corpos.
»Esta investigação revelou os seguintes fatos:
»– Uma mulher de nome Stana, ao dar um filho à luz e no seguimento de
uma curta doença de três dias, morreu aos 20 anos e 3 dias confessando que,
para se livrar de toda a espécie de influências, se esfregara com sangue de
vampiro. O seu estado de conservação era excelente. Aberto o corpo descobriu-se
uma grande quantidade de sangue fresco na cavitate pectoris.
»– Miliza, uma mulher com 60 anos que morreu após três meses de doença
e enterrada noventa e tal dias depois, tinha ainda uma quantidade de sangue
em estado líquido.
»– Os oficiais do rei enumeram ainda onze pessoas da mesma aldeia,
mortas em circunstâncias estranhas mantendo sangue fresco e concluem a
seguir, no seu relatório: ‘Depois de devidamente registrado o que atrás foi
exposto, ordenamos à ciganagem que passava que decapitassem todos esses
vampiros. Foram queimados os corpos e espalhadas as cinzas por Morávia,
enquanto, devolviam aos caixões, os corpos encontrados em estado de
decomposição.’ EU AFIRMO e os Unterfeldscherer, QUE TODAS AS COISAS SE
PASSARAM TAL COMO ACABAMOS DE RELATA-LAS, em Medwegya, na Sérvia, a 7 de
Janeiro 1732.»
Assinatura: os oficiais do rei... As testemunhas. Belgrado, 26 de
Janeiro 1732.
O êxtase negro
É nesta atmosfera de caça aos vampiros que a igreja se deparou com a
mais terrífica blasfêmia: a maldição do sangue, sangue este de que o Antigo
Testamento nos fala como portador do Espírito...! E, pois, pecado mortal por
excelência: Um crime contra o Espírito!
E no entanto, nas histórias de vampiros, a morte aceita este estado de
vida intermédio, esse sono do morto-vivo encerrado no seu caixão, tendo o poder
de vagabundear durante a noite como ave noturna que descreve círculos
concêntricos ao aproximar-se da sua presa.
E de noite que o duplo astral do vampiro se transforma em lobo,
fogo-fátuo, morcego. Está ligado aos vivos por forças subterrâneas, ligações
secretas que vêm prender-se como anzóis ao sono de futuras vítimas. Na versão
de Bram Stoker – autor do Drácula – a hora do vampiro situa-se entre a
meia-noite e a uma hora da manhã, mas as invocações do morto-vivo fazem-se ao
pôr do Sol.
O sono não protege. A consciência de quem dorme fica anestesiada, a
vontade entra em letargia e qualquer espírito malfeitor pode vir ocupar o seu
espírito deixando-lhe ficar uma imagem, um pesadelo que manterá ao despertar
sob a forma de uma obsessão.
Pela manhã, a vítima do vampiro lembra-se de ter tido um sonho
estranho que lhe deixa um profundo cansaço, um estado de extrema debilidade.
Ela experimentou aquilo a que os exorcistas do século XVIII chamam: a VIOLAÇAO
DA ALMA.
Sintomas de uma manifestação oculta que escapa ao túmulo, ou
desequilíbrios psicopatológicos?
Cada um explicará o fenômeno à sua maneira, agarrando-se às suas
crenças e terrores, mas isso não modificará em nada a natureza dos sintomas.
São de tal forma características que um padre exorcista ou os velhos aldeões
que «sabem», conseguem detectar a passagem de um vampiro.
O estudo dos processos verbais e das aparições de vampiros nos séculos
XVIII e XIX –sobretudo na Europa central – permite-nos abrir o dossier
médico-psíquico do homem e da mulher tornados vampiros.
Uma mulher ainda nova que recebeu a visita noturna de um vampiro,
acorda pela manhã lembrando-se de um pesadelo vago, impreciso mas
aterrorizante. Desde logo, com as visitas noturnas o seu comportamento vai-se
sucessivamente modificando. A fraqueza e a prostração parecem ser os primeiros
sintomas. Seguidamente estará sujeita a perdas de consciência, novos pesadelos
cada noite um tanto mais precisos, êxtases negros onde os ritmos deslizam com a
lentidão de um veneno. Porque é bem de um veneno que se trata. A vítima – que
não entrou ainda na «cadeia» dos adeptos – vive num estado permanente de
sonambulismo e súbitas entradas em transe, que surpreende e horroriza quantos a rodeiam dada a modificação repentina.
Acorda de manhã, umas vezes com dores de cabeça, com enxaquecas sem
aparente razão de ser, com a sensação de pesadelos de que se não lembra e a
idéia vaga de ter dormido com um peso sobre o peito, uma impressão de asfixia
durante o sono.
Outras vezes tem um acordar diferente. Olhos abertos e vítreos, ela
persegue ainda o pesadelo noturno, de olhar vago.
Este torpor não durará além de alguns instantes mas o dia decorrerá
entre dois mundos, com ausências, com incompreensíveis sonolências e, por
vezes, comas com a duração de dois ou três minutos.
A doença desenvolver-se-á rapidamente até à morte. Trágico começo no
decorrer do qual a vítima se torna «adepta» e cairá no abismo. Ela já não
poderá abandonar a cama, e a palidez é tal que nem a febre diminuirá. Deixa de
conhecer os membros da família. O sono é cada vez mais freqüente e mais
profundo, dando-lhe cada vez mais o fácies da morte. O pulso fraco, os
olhos parados. Interrogam-se entre si os especialistas. Um deles crê tratar-se
de uma «histeria cataléptica».
Raymond Rudorff – que explorou os «arquivos do Drácula» – descreve
maravilhosamente um dos transes vividos pela vítima do vampiro:
«Depois de ter interpretado as mais encantadoras melodias, Adelaide
atacou temas mais violentos. Um brusco entusiasmo se apoderou dela; os olhos
começaram com um brilhar sobrenatural; empalideceu, vacilou, mas recuperou, e
de novo, batendo as teclas com vigor redobrado, lançou-se numa série de áreas
ainda mais violentas que as primeiras.
»Estranhas visões desfilaram diante dos meus olhos enquanto ela tocava
energicamente acordes vibrantes: tempestades em plena montanha, o roncar de mar
revolto, assembléias noturnas de bruxos, noite de Walpurgis[2][2] sobre qualquer cume descampado...
»Adelaide tornou-se cada vez mais pálida, a música cada vez mais
violenta até que, largando um grito, Conrad se levanta num salto dizendo:
»– Basta! Por amor de Deus!
»Tremendo dos pés à cabeça, Conrad aproximou-se do piano enquanto
Adelaide se levantava olhando-o com ódio.
»– Adelaide – insistiu ele –, suplico-lhe, não toque mais nada! Você
está a fazer mal a si própria!
»A transformação que se operou nela foi espetacular. A doce e amável
rapariga já não existia. Em seu lugar, erguia-se diante de nós uma cara lívida
em fúria, transtornada por uma cólera intensa e, de voz ríspida e fria (que me
gelou o coração), vociferou: «Não obedeço senão ao meu senhor!» Sacudida por
terrível tremura, deu alguns passos e caiu redonda aos pés de Conrad.»
Todas as manifestações de vampirismo pertencem a estas atmosnegras.
Nada sustém esta fascinação pelo abismo, este culto do terror!
SEGUNDA PARTE
Os poderes da noite
Desde o despertar
da humanidade que o homem vem praticando o culto do sangue para comunicar com
os espíritos secretos da natureza, para adivinhar o enigma do universo e pôr
fim à angustiante pergunta: «como vencer a morte?»
Conta-se que Horácio fez comparecer duas mulheres mágicas para que se invocassem as divindades e se compreendessem
as coisas do porvir: «Primeiro dilaceram com os dentes uma pequena ovelha cujo
sangue foi preparado numa cova para que viessem ali as almas dos mortos. Em
seguida colocaram, perto, duas estátuas, uma de cera, outra de lã. A de cera
era mais pequena e subordinada da outra. Esta a seus pés, como que suplicante, apenas
esperava a morte. Ao fim de diversas cerimônias mágicas, a imagem de cera foi
derretida e consumida».
O sangue permitia atrair os espíritos e dar-lhes um rosto, uma forma.
Lucien de Samosate descreve os vampiros na sua Histoire Veritable. Dá-lhes
o nome de Onosceles, e afirma que estes seres se alimentam, não apenas
do esperma mas também da carne e do sangue de estranhos, atraídos pelas suas
carícias. A flor do alho não tem qualquer poder contra os vampiros,
contrariamente ao que acontece com a raiz de malva que os obriga a, fugir,
confessando os crimes que cometeram.
«À noite», escreve ele, «chegamos a uma ilha pouco importante, toda
habitada por mulheres (pelo menos assim o pareciam) falando a língua grega.
Aproximam-se, estendem-nos as mãos e beijam-nos. Adornadas como se fossem
cortesãs, todas novas e bonitas, vestidas com túnicas até aos calcanhares. O
nome da ilha é Cabalusse, e a aldeia é Hydamardie. Cada uma destas mulheres,
como que tomando conta de nós, conduziu-nos a sua casa e deu-nos hospitalidade.
Por minha parte, um mau pressentimento tornava-me hesitante. Com um olhar
atento, descobri ossadas e caveiras de um grande número de homens. Apetecia-me
gritar, pedir ajuda aos meus companheiros, dispormo-nos à guerra preferindo
afinal nada fazer.
Agarrei unicamente a raiz de malva que trazia comigo, suplicando que
me livrasse dos perigos que me ameaçavam. Um instante passado, e enquanto ela
se ocupava em me servir, noto que as suas pernas não são iguais às de outras
mulheres, pois tem patas de burro. Desembainhe a espada e, agarrando-a,
acorrentei-a e obriguei-a a que tudo me confessasse. Resistiu, mas acabou por
me dizer que eram mulheres marinhas chamadas Onoscéles, e que devoram todos os
estranhos que ali abordam. ‘Nós embriagamo-los (explica ela) para que se deitem
conosco e enquanto dormem, então, degolamo-los’.» Ouvindo estas palavras,
deixo-a ainda acorrentada e subo ao telhado onde, com todas as minhas forças,
chamo os meus companheiros. Quando chegaram, contei-lhes tudo e mostrei as ossadas
conduzindo-os junto da minha prisioneira; eis que, transformada em água,
desaparece. Mergulho a espada ao acaso nessa água que se transformou em
sangue».[3][3]
O sangue torna-se o elixir da vida, o mesmo princípio de vida e de
morte. Nada escapa à sua lei. Ele, só por si, contém as origens do homem e do
mistério da sua morte. «Os demônios impuros», escreve Hallywell, «em
Mélampronéa (1681) sentem prazer em sugar o sangue quente dos homens e dos
animais. As feiticeiras oferecem a Satanás uma parte do sangue delas no momento
da assinatura do pacto...» Magia noturna, juramento de amor, combate,
vitória... nada escapa à lei do sangue. É ele que permite selarem-se contrato,
invalidá-los, matar, comunicar com os mortos.
»Salve, Pai dos deuses! Clamam os padres da morte no antigo Egito.
Salve vós os sete Hacthor com os cornos sangrentos a ornamentar-vos! Salve
senhores do céu e da terra! Vinde a mim, e que o casal seja um só, uno no mesmo
túmulo, forte e incorruptível, ligado pelo sangue e água, pelo terror e pela
beleza que descerão vivos a este lugar. Se vós não chegardes a uni-los,
eles que estão prontos a receber o vosso raio, eu Nasha, incendiarei Bousiris e
queimarei Osíris.»
Os sacerdotes do culto dos mortos não temem lançar um desafio aos
deuses supremos, blasfemar para forçar os espíritos do além a manifestarem-se,
a tomar sobre si o defunto para a sua longa viagem noturna.
Toda a história mágica dos homens relata a história misteriosa do
sangue, o seu poder sobre o destino do homem. O homem transporta a obsessão do
sangue através das raças e das civilizações. Podem os homens morrer,
desaparecer os impérios, que a humanidade – a mais que velha humanidade – não
esquece a presença atemorizante do sangue, a sua presença oculta no interior do
corpo, o seu mistério. Cada molécula parece dissimular uma terrível verdade: o
próprio segredo do homem e do universo.
Neste túmulo vivo
depositei meu sangue
É desta forma que os adeptos do
vampirismo acreditam no supremo poder do sangue. Afirmam que este atravessa o túmulo
acordando o duplo, que escapa à decomposição. E o túmulo torna-se a prova
alquímica onde a matéria negra trava o seu último combate, em que ela se
transforma em Maelström[4][4]
de energias vivas, refazendo vida a partir das cinzas.
O vampirismo cultivou sempre a inversão
e negação dos valores espirituais do Evangelho.
Logo que Jesus morreu na cruz, a lança
do centurião trespassou o lado e imediatamente saiu sangue que derramou o
espírito de Deus.
É nesta fonte de vida que os cristãos
virão beber, para que possam ter o direito à ressurreição da carne e à
imortalidade.
Através do corpo imolado do Cristo, Deus expande-se e integra-se no
mundo.
«Se alguém tem sede, venha a mim! Beba quem crê em mim» declarou Jesus
no Templo, em Jerusalém.
A Escritura anuncia: Do seu seio, correrão fontes de vida. É do
lado aberto de Cristo que procede o Espírito e se derrama sobre os homens. No
momento da Eucaristia, o sacerdote lembra as palavras de Cristo: «Tomou o
cálice e dando graças o abençoou e deu aos seus discípulos dizendo: Tomai e
bebei todos, este é o cálice do meu sangue, da nova e eterna aliança, derramado
por vós e por todos os homens em remissão dos pecados». Assim o sangue de
Cristo renova a aliança com Deus, propaga o Espírito e destrói a morte.
A partir dos santos mistérios, os adeptos do vampirismo construíram a
sua crença quanto à incorruptibilidade do corpo, do sangue que renova a vida e
impede a morte, sem nada purificar, conservando as máculas e os miasmas
psíquicos, os instintos da morte, o medo e o ódio... prendendo-se ainda ao
mundo dos sentidos e do prazer.
A obsessão do vampirismo é o medo da morte e a necessidade do mundo
(apesar do túmulo), e recusar morrer e abandonar o corpo. Todas as patologias
estão ligadas para criar assim o monstro noturno, bebedor de sangue, em
rebelião contra a luz.
Na mitologia do vampiro sabe-se que o morto-vivo teme a luz do dia
porque ela poderá destruí-lo, reduzindo-o a cinzas.
Compreende-se assim porque se diz – no culto do vampiro – que a cruz
de Cristo o faz recuar e evita a sua saída do túmulo, pois ela simboliza a luz
de Cristo, vencedor da morte destruidora de cada parcela ou átomo de
obscuridade que transfigura e ressuscita o mundo e cujo sangue derramado
liberta o Espírito. O crucifixo não é um elemento folclórico para filmes de
vampiros. É a transfiguração face às forças vegetativas da morte.
O sangue do dragão
Na Romênia do século XV, Drácula – o príncipe Vlad Drakul, senhor de
Valáquia –pertencia à Ordem do Dragão, confraria militar de iniciação fundada
por Segismundo I da Hungria. Drac – a raiz do nome Drácula – significa
Dragão, símbolo de imortalidade e de vitória sobre a morte.
Tradicionalmente, dragão é o guardião do sangue eterno. Para os
taoístas, os adeptos que tenham vencido o túmulo tornam-se imortais voadores e
tomam a aparência de um dragão. Na magia chinesa, as correntes de energia que
atravessam a terra são chamadas «veias de dragão». Da mesma forma, as energias
telúricas vindas do subsolo seriam o «sangue do dragão», o poder contido nas suas
«veias».
Nas narrações mitológicas o dragão faz ninho nas entranhas da terra,
vomita fogo, guarda a entrada da caverna ao fundo da qual protege um monstruoso
tesouro. O dragão representa a força, a energia telúrica, a atração, as forças
da gravitação que prendem a matéria e impedem a sua sublimidade.
O fato de se ter associado o dragão às forças e espíritos diabólicos
não é uma simples superstição. Por detrás dessa crença esconde-se a opacidade,
o peso, a obscuridade. O dragão retém a alma nos nós da matéria tal como o
minério de ouro que, sem sair do subsolo, não conhecerá a deslumbrante
purificação.
Os ascetas dos primeiros séculos da era cristã combateram muitas vezes
o diabo sob a forma de um dragão que vem tentar a alma no momento da oração e
leva-la de novo à profundidade das trevas.
«A alma da carne está no sangue», dizem as escrituras (Levítico). «E
preciso que o dragão morra, isto é, que se destruam as forças diabólicas, para
que o sangue se liberte desta força e volte a ser espírito. Então a alma se
expandirá nas alturas, em sua plenitude.»
Na mitologia escandinava, Siegfried, o herói solar, bebe
acidentalmente o sangue do dragão que acaba de vencer. Desde logo compreendeu a
linguagem das aves. Ele espalha o sangue do monstro por todo o corpo,
tornando-se incorruptível. A morte já não o deterá. Ele está coberto pelo
Espírito.
O sangue do vampiro, retido nas entranhas da terra, não tem qualquer
poder espiritual mas sim psíquico. Ele age numa zona fechada e crepuscular,
provocando a obsessão, o enfeitiçamento diabólico, a mediunidade, o
sonambulismo, o cair em transe. Enfim, todos os sintomas de uma alma doente que
desconhece a subtileza e a purificação.
As crenças vampirescas afirmam que o sangue esconde em si um poder
indestrutível: a energia psíquica, o fluido mental, ligados inevitavelmente ao
magnetismo da Lua.
Para os indianos da América do Norte e do Canadá, o vampiro coloca a
sua boca, transformada em tromba, na orelha da pessoa que está a dormir e
suga-lhe o cérebro. Note-se, como a maior parte dos casos de vampiros, que se
trata de alguém entregue ao sono e, assim, à influência da Lua.
Outras tradições existem em que esta energia poderosa vem diretamente
da Lua (de Hécate – pensa-se – a deusa lunar a quem são sacrificados os
recém-nascidos de cujo sangue ela absorve a vitalidade).
Nas crenças chinesas, a família do defunto crê que a partir da
influência da Lua poderá nascer o vampiro. Então veda todas as fendas do caixão
de forma a que os raios lunares não possam aí penetrar. Estes teriam o poder de
transformar o cadáver em «Kiang-si», o mesmo que «vampiro». Marcianos – eremita
sírio dos primeiros séculos – abandonou o deserto para se consagrar
exclusivamente à oração. Theodoret de Cyr conta a sua vitória sobre o dragão
com a ajuda da força espiritual:
«Uma das vezes que o grande Marcianos orava no pátio de entrada, um
dragão que rastejava pela parede leste debruçava-se lá do alto e, de goela
aberta e olhar tenebroso, mostrava as suas intenções.
»Estava presente Eusébio, que ficou assustado com tal espetáculo e,
convencido de que o seu senhor nada sabia quanto ao que se passava, gritou para
preveni-lo e conseguir que ele fugisse depressa. Porém Marcianos rejeitou,
bramindo, os temores daquele, que aliás seriam perniciosos e, persignando-se;
soprou. O dragão como que seco pelo fogo e como que abrasado ficou feito em
nada, tal como um pedaço de palha queimado.»
A respeito do poder espiritual de Marcianos, oposto aos poderes
psíquicos do dragão, Thódoret de Cyr revela: «Marcianos esforçava-se por
esconder o dom que possuía, mas as suas virtudes brilhavam como um clarão e
punham a nu o poder que ele escondia.» Nas lendas da Transilvânia, vê-se um
caçador de vampiros enterrar uma estaca aguçada no coração do monstro. Logo, o
sangue escorre em borbotões e o cadáver do morto vivo cai feito em pó.
Vlad Drakul – o Dragão – restitui à terra o sangue que ele mantinha
com ajuda do sortilégio. Então, o sangue torna-se Espírito e o corpo libertado
parte as amarras e volta ao pó.
A estaca e a cruz
Não há ainda muito tempo que existiam os «caçadores de prêmios»
para os quais o vampiro era uma presa natural. Entre as duas guerras mundiais,
na aldeia de Pirenil, Podrina, o mágico muçulmano que aí vivia, recebeu mil
dinares para destruir um vampiro. Do mesmo modo que em todos os lugares rurais
da Europa, o padre cobrava muitas vezes a proteção religiosa que encarnava. Em
nome de Cristo muitos erros se cometeram, e a caça ao vampiro degenerou muitas
vezes em autênticos massacres de inocentes: «Em 1837, na aldeia de Derknoi, na
Rússia, um estrangeiro acabado de chegar tornou-se suspeito para os camponeses
e, tomando-o por vampiro, torturaram-no queimando-o em seguida. As pessoas
desta região pensavam que apenas de noite estes monstros apareceriam», escreve Tony
Faivre.
As mais estranhas crenças nasceram deste medo ao «morto vivo». Assim,
gentes do povo germânico consideravam que as crianças que tivessem no corpo
alguma mancha avermelhada teriam inevitavelmente de ser «vampiros», mas sob uma
forma muito peculiar; sem apresentar aspecto tenebroso. Depois da vida
terrestre, diz a lenda, virão como borboleta branca que, pousando sobre o peito
de quem dorme, daí extrairão o derradeiro fôlego, o que asfixiará a vítima.
Em Vestefália o vampiro raramente toma a forma de um morcego, mas sim
de borboleta. Estas materializações surpreendentes nada têm a ver com o vampiro
de carne e osso, vestindo os seus próprios fatos impecáveis, freqüentando os
meios mundanos de todas as épocas.
Para as tradições esotéricas, não restam dúvidas: só o duplo, o «corpo
astral» do morto tem o poder de agir para além da morte. O corpo não sai nunca
do túmulo. E sim a energia do defunto que, por razões desconhecidas, se
manifesta ainda depois da extinção das funções vitais.
Destruir esse duplo: tal seria
o alvo a atingir pela estaca aguçada que entra pelo peito do vampiro.
Os padres ortodoxos respondiam
quase sempre da mesma maneira às superstições. «Que se deite água benta sobre
os túmulos, que se abram as sepulturas e se queimem os cadáveres, para
que o medo se afaste de toda a aldeia.»
Na Bulgária, era uso o padre erguer a imagem de um santo cristão por
cima do defunto, e, pegando nu ma garrafa com sangue, obrigava o vampiro a
entrar dentro dela. Depois atirava a garrafa ao fogo.
Na Sérvia, o sacerdote dirigia-se ao cemitério acompanhado pelos
camponeses apavorados, tirava o caixão do túmulo, deitava palha por cima,
atravessava o corpo do defunto com uma estaca de espinheiro e queimava-o. Em
seguida, dizia: «O demônio não virá atormentar mais ninguém.»
A meio do século XVIII, o medo instalou-se um pouco por toda a Europa.
Tudo é possível acontecer, desde suspeitar-se das sepulturas, não vão elas
servir pa- ra dissimular presenças diabólicas do além túmulo...
Em cada país o clero arranja uma estratégia para combater esses seres
da noite e para fazer face aos mortos-vivos, que parece começam a invadir a
Europa Central.
«Os sacerdotes», escreve J. L. Degaudenzi, «celebram missa durante os
nove dias que se seguem à inumação».
Ao décimo dia, se a epidemia continua desenterra-se o corpo,
transporta-se à capela, arranca-se-lhe o coração por entres nuvens de incenso.
Também as vísceras são queimadas e tudo o que resta do broucolaque[5][5].
Em Milo as coisas não se passavam de maneira muito diferente, a avaliar
pelo relato de Ricault, em 1679. Uma pessoa excomungada foi, diz ele, enterrada
em local distante da ilha de Milo, onde pouco tempo depois surgiram
manifestações espíritas. Tudo se preparava então para abrir o túmulo,
desmembrar o corpo, ferve-lo em vinho, quando a família deste, enviando
dinheiro ao Patriarca de Constantinopla, pediu que lhe fosse levantado o
castigo. No momento do levantamento, perante a perplexidade de quem assistia[6][6],
e sete anos após estar enterrado, o corpo desfez-se por completo.
A partir de 1824 o trespassar de cadáveres acabou, embora se
mantivesse o enterrar de criminosos e suicidas nas encruzilhadas dos caminhos,
para evitar que se tornassem «vampiros» infestando lugares sagrados.
O Código Penal russo previa no seu artigo 1472.º: «Ao suicida não é
concedido um enterro religioso.»
Abrir os túmulos e mutilar os cadáveres estava previsto no artigo
234.2 do mesmo Código.
A transformação em lobo
Nas
crenças e lendas do vampirismo, o morto-vivo não tem apenas o poder de se
transformar em morcego. À noite, quando ele sai do túmulo, torna-se lobo...
como se à floresta, às montanhas, aos ermos que rodeiam o seu domínio apenas
fosse adequada essa forma flexível, também ela feita para a astúcia, essa forma
que mata.
Mas o uivo de lobo (que sendo dado pelos cães chamamos vulgarmente o
uivo da morte) não é somente um uivar animal. E o instinto, a resposta, assim
que o lobo se apercebe do poder oculto e magnético da Lua.
O vampiro-lobo – dizem as lendas – uiva à Lua.
Ele cumpre um tipo de cerimonial gelado. O vampiro que tem o poder de
ficar com o aspecto de lobo não é somente um amante da licantropia. Não é um
monstro isolado, perdido na noite e entregue à sua forma animal. Ele contém
todos os instintos secretos do animal, todos as suas forças... e mesmo para
além disso (padres ortodoxos houve que lhe deram certo crédito). Uma vez que
ele tem a faculdade de liderar entre os lobos e os morcegos, o reino animal
reconhece nele, por instinto, a energia oculta que lhe vem de antes da morte.
A lenda não esqueceu o peculiar poder do vampiro quando fala nos cães
uivando à volta de sepulcros e de animais meios enlouquecidos pela presença do
morto-vivo. O animal reage primeiro que o homem, porque compreende antes deste
o que representa um vampiro. «Quando ele apareceu de repente ao pé de mim»,
escreve Stoker no Drácula, «eu direi ter ouvido apenas a sua voz
elevar-se e tomar um tom de profunda autoridade. Vi-o então a meio da rua.
Estendia os longos braços como que para empurrar um muro invisível. Os lobos
deixaram de uivar e recuaram lentamente. Nesse momento a Lua foi coberta por
uma nuvem e de novo ficamos envoltos em profunda escuridão.» E acrescenta mais
à frente: «E contudo, pondo-me à escuta, ouvi lá muito longe, no vale, mais
lobos uivar. Os olhos do conde brilhavam e exclamou: ‘Escutai-os, são as
criaturinhas da noite, e que música eles fazem!...’»
Homem-morcego, homem-lobo, o morto-vivo tem imensos poderes para se
transformar; mas o mais estranho é aquele que lhe permite desmaterializar-se
quase totalmente, tomando a forma etérea de um raio de lua ou de um simples
pirilampo.
Este fenômeno é dos mais complexos. Trata-se de um ponto de energia
minúsculo, de uma intensidade incrível. Um pouco como certos pontos negros do
tamanho de uma cabeça de alfinete e que aspiram tudo o que os rodeia nos
espaços intersiderais.
E o poder final do vampiro. Assim, o vampiro não possui apenas um
corpo mas vários. É pois impossível dar-lhe um único nome, ou atribuir-lhe um
só aspecto.
Quem é o príncipe Drácula? Um fantasma de forma imprecisa, toda feita
dessa «coisa» a que se chama vampiro, à falta de outros nomes que se lhe dêem.
Mais que um corpo ou uma forma, ele é um conjunto de energias vivas, larvar,
que uma vontade forte prolonga além morte.
Hoje em dia, dificilmente se aceita que um ser possa existir para além
do túmulo, possuindo o poder de se transformar em lobo, em morcego ou em
pirilampo. A superstição tomou conta desta terrífica criatura. Um Barba-Azul da
noite, um monstro bebedor de sangue. Seja onde for, ele encarna para nós o
medo... o medo da morte.
Nas tradições do mundo da magia, afirma-se que o poder do vampiro
depende unicamente da sua vontade. Mas essa vontade nada tem a ver com as
vontades humanas, pois ela não habita um corpo vivo. A superstição diz que os
vampiros apenas saem em noites de Lua cheia, como se a sua atividade noturna
dependesse essencialmente daquele astro.
Tratamos de voltar atrás, às antigas civilizações, para compreender
bem a importância do seu culto dedicado à deusa Istar que, como Hécate,
representa o aspecto mágico da Lua.
Sobre uma tábua da Caldeia, conservada no Museu Britânico, pode ver-se
o traçado da epopéia mitológica. Relata-se aí a descida de Istar ao país dos
mortos.
Chegada às portas da morada infernal, chama e pede sob ameaça: «Abre a
tua porta senão saltarei a vedação, galgarei os montantes e farei que os mortos
se ergam para devorar os vivos, e que venham a exercer sobre estes o seu
poder.»
Para os mágicos de Nivive, Istar reina entre os morto-vivos, isto é,
sobre os que venceram a morte. Tal como a todos os que a veneravam como toda
poderosa, assegurava viverem sempre na morte.
Depressa as crenças populares afirmaram que os defuntos podiam vencer
o túmulo se tivessem desejo de sangue de um vivo. Do mesmo modo que, na
mitologia grega, Eurípides representa Aquiles numa armadura dourada, em pé
sobre o túmulo, bebendo sangue de uma virgem sacrificada em sua glória.
Mais lamentáveis parecem ser esse tipo de vampiros, mulheres
feiticeiras da Roma antiga que tinham a faculdade de se transformar em aves de
rapina para vir saborear sangue humano. «Vistas durante a noite atravessando os
céus, e sem que nem as portas ou fechaduras as detivessem, iam estrangular as
crianças e devorar-lhes o fígado.»
Os partidários do culto da magia mergulham no fascínio do sangue
porque se sentem vulneráveis, ameaçados como todas as formas de vida terrestre.
O batismo do sangue para o vampiro é ao mesmo tempo blasfêmia e perversão. Deve
agir como armadura e protegê-lo contra a morte.
E como uma imitação do batismo de luz, do sacramento do Espírito
Santo, ligação indissolúvel entre Deus e o homem.
«Revesti-vos de Cristo», clama S. Paulo aos Romanos.
A imagem do túmulo ilumina-se de outra forma. A luz é vertical, cai
como um projetor potente e elimina todas as obscuridades.
Segundo os evangelistas, Cristo visitou os mortos: «Também aos mortos
foi anunciada a Boa Nova, a fim de que, julgados segundo os homens na carne,
eles vivam segundo Deus no espírito.»
O vampiro nega a ressurreição. Ela pretende pegar a morte com o seu
próprio punho, com a ajuda do seu querer pretende escavar a sua cova no inferno
e aí fazer a sua morada, sem o auxilio de Deus.
Os crimes do barão Brecy
Os sortilégios do
vampirismo não morrem tão facilmente como se possa pensar.
Ainda há poucos anos um inquérito fez deslocar certos inspetores às
ruínas do castelo de Brecy de Sologne. Os velhos habitantes da aldeia de Brecy
falava de um barão vampiro, rondando as ruínas e apavorando toda a região. Não
muito longe do castelo, encontrou-se o corpo de Guillemette H. com o ventre e
as pernas dilaceradas como se tivesse sido desfeita com algo de metal, com o
peito e os rins dilacerados, com as costelas e vértebras partidas. A rapariga
tinha sido violada mas debatera-se ferozmente, como o provava as unhas partidas
e a roupa rasgada.
Os inquiridores descobriram uma profunda marca, sobre o ombro, marca
essa feita sem dúvida com a fivela de um cinturão do assassino. «Um motivo de
me tal em relevo com um diâmetro de cinco centímetros que podia representar
vagamente uma cabeça de animal... talvez de um leão», cita um cronista.
No chão, à volta do cadáver, nem um só vestígio do assassino.
A família acompanhou os agentes encarregues desta investigação até ao
posto da polícia, onde estes consultaram enorme documentação com o fito de
encontrarem improváveis culpados, maníacos ou desequilibrados sexuais.
O inquérito pouco mais além poderia ir. Um homicida misterioso viola
uma rapariguita, mutila-a e desaparece sem deixar vestígios.
Mas para os velhos da aldeia, os que de tudo se lembram, o assassino
não andaria por muito longe, embora talvez já fora do alcance da justiça. Duas
mulheres encorajando-se mutuamente, resolveram sugerir desde o começo do
inquérito que se desse uma olhadela pelo prado, perto do sítio do crime,
acrescentando com ares misteriosos que esse caminho cruzava o lugar do «senhor
punido».
Nesse lugar – conta Claude Seignolles –, há séculos mataram e
enterraram os despojos do senhor da região, homem belicoso, combatente em
várias guerras, patrão severo, exigente e impiedoso para com a sua gente, como
se eles fossem seus inimigos e que, forçados, acabaram por sê-lo. Um corajoso e
hábil lenhador, encontrando-o adormecido junto a uma árvore num dia de imenso
calor, abriu-lhe a cabeça com forte machadada. Mas, mesmo morto, o rancor
continuava a viver nele, a ponto de sair do túmulo uma vez em cada século, indo
procurar vingança durante algumas horas por aquelas paragens. Isto, se se der
crédito aos antigos aldeões...
O cabo da polícia dirigiu-se ao local indicado pelas mulheres como
sendo o lendário sítio do túmulo. O terreno aparentava um abaixamento que o
polícia observou, e esse abatimento de solo, com ervas e em forma de retângulo,
podia bem ser uma cova mortuária. Logo o cabo da polícia trouxe um dos
investigadores ao local da descoberta. Mas uma vez chegados lá encontraram o
chão completamente raso, o que fez espantar de tal forma o polícia que
perguntava a si próprio se estaria com a cabeça a andar à volta devido à
violência do crime e a começar a ver coisas onde não existiam na verdade.
Rondando o solo, enterrava o pé, atraído pela curiosidade, somada a certa
excitação que o relato das duas aldeãs lhe teria provocado. Fez sentir uma
ressonância, justamente no sítio onde imaginara o túmulo.
Foram imediatamente requisitados dois cantoneiros para escavarem. O
terreno estava macio, a pá e picareta não tardaram a fazer o trabalho e
depressa apanharam um osso comprido que os homens, com as mãos, acabaram de
desenterrar. Tratava-se de uma tíbia! Um osso que, de tão sólido, eles não se
arriscaram a quebrá-lo! Depois seguiram-se a rótula e o fêmur de uma perna
forte, em perfeito estado de conservação. Um crime descobrindo outro.
Desprendemos os membros inferiores de um longo esqueleto antigo...
depois, subindo um pouco, uma espessa bacia, as mãos grandes e abertas com
falanges de tamanho impressionante. Um dos utensílios com que se escavava bateu
numa coisa de metal que com cuidado raspamos. Era o plastrão de uma armadura de
bronze, que tinha ao meio, em relevo, o brasão da pessoa a quem pertencera, um
leão apoiado nas patas traseiras. A rapariga violada fora atingida por um
objeto metálico com o mesmo motivo do brasão do barão de Brecy, adepto de
ciências demoníacas, excomungado pela Igreja sete séculos depois...
Como se vê, muitos destes senhores «vampiros» partidários da
necromancia tinham sido excomungados pela Igreja. A excomunhão era a prova de
que eles pertenciam às legiões da noite. Eram temidos e nenhuma terra abençoada
aceitaria os seus despojos ainda que, em Paris, se tivesse construído
especialmente um cemitério para todos os rejeitados pela Igreja, fossem eles
adeptos do diabo, fervorosos praticantes da magia negra. No começo do século
passado, este cemitério abandonado servia de templo fúnebre a todos os mágicos
de magia negra, patrícios do vampirismo ou de outros deuses infernais. Uma
verdadeira aldeia vampiresca na Rua de Flandres, em plena Paris.
René Schwablé, aderente também às ciências ocultas, descreve este
diabólico cemitério em Chez Satanaz, obra que surgiu em 1913.
«Encontrareis no 44 da Rua de Flandres uma grande e velha construção
com dois portões largos, abertos para um pátio enorme, circundado por
cavalariças e abrigos. Entrai através de um corredor úmido, escuro, até
encontrar uma porta pesada cuja fechadura ferrugenta precisa de ser arrombada a
murro. Por detrás desta velha porta existe uma pequena floresta virgem, entre
dois muros altos com fendas. Encontram-se aí mais ou menos vinte e cinco
túmulos dos quais dois ou três estão em bom estado ainda, mas os outros
completamente escavacados. Cruel, a vegetação levantou as campas, impeliu as
lages, partindo as pedras, revolveu os caixões. No tempo de Luís XIV eram aí
enterrados os hereges, uma vez que não podiam ser inumados em necrópoles
públicas.
Os locais de vampirismo e de práticas negras passam despercebidos ao
profano. Contudo, basta empurrar uma porta oscilante, saltar um muro de alguma
ruína, descobrir um cemitério abandonado, para que a lenda desperte do seu
mundo de cinzas, vista os seus fatos de terror e desça às ruas do nosso bom
velho século XX.
Os lugares malditos são a morada das perseguições fantásticas. A pedra
reteve em si todos os dramas, todos os terrores. A vegetação está doente, a
pedra está carcomida pela lepra e uma impressão de mal-estar salta aos olhos
como veneno.
O exorcismo romano pode santificar a pedra e dissipar os miasmas da
noite. Depende tudo espiritual do exorcista. Pode ficar extenuado do seu
combate, naufragar na sua loucura. Para afrontar maldições é necessário a
virtude e a correção luminosa dos ascetas plenos de Espírito.
Nenhum exorcista orou sobre as ruínas do castelo de Brecy. Aí se
mantém portanto toda a sua carga maléfica.
Os monges do Oriente opunham o sangue do mártir ao sangue dos
sacrificados da magia. Então o panorama maldito transfigurava-se como aconteceu
com o frade Thalélaios, monge sírio, que, retirando-se para o deserto, combateu
todas as noites homens e mulheres vampiros que interceptavam as suas orações e
reclamavam-lhe o sangue. Pela força da sua oração tudo se transfigurava: é por
isso que esta terra que estava noutros tempos submissa à impiedade e aos
demônios, renunciou ao seu erro ancestral para enfim acolher o clarão da luz
divina. Servindo-se das suas mãos ele fez cair por terra os templos dos
demônios e edificou um santuário aos vitoriosos mártires opondo aos falsos
deuses os corpos divinos. Sangue por sangue. Os ascetas sabem que a carne é
insensível, lenta e pesada, como a sepultura. É o Espírito que ilumina que
transfigura e rouba à morte.
Os principais locais do vampirismo
O mais conhecido dos locais da velha religião da noite é, sem qualquer
espécie de dúvida, o castelo de Drácula – pelo menos o que dele resta – em
Curtea de Arges, nas montanhas da Transilvânia. Mas há também outros sítios
onde a lenda se fixou profundamente. O pequeno porto de Cruden Bay, na Escócia,
é um desse estranhos sítios. Foi aí, no país de Stevenson, que Bram Stoker
então pertencente à sociedade secreta Golden Dawn concebeu a sua obra prima: Drácula.
A descrição feita por F. Riviere aquando da viagem de regresso de
Cruden Bay, acerca do cenário alucinatório, permitirá a Bram Stoker invocar o
«príncipe dos vampiros».
«Eu tinha reservado um quarto na famosa estalagem de Kilmarnock Arms,
estalagem essa onde Stoker, depois de uma refeição farta, recebera a visita do
anjo do mal naquela cama em que as dores de estômago o tinham obrigado a dar
voltas sobre voltas no decorrer de um pesadelo...
»Devo dizer que o edifício ao Sol poente deixaria bem impressionado
qualquer apreciador de filmes diabólicos da Hammer! Estava lá tudo: a fachada
estilo Tudor, a hera trepadora, o pórtico carregado de ornamentos, os vitrais
dissimulando por certo inquiridores olhares, a pesada porta de pregos cravados
e um gato preto cuja silhueta sinistra se perfilava sol um céu encarniçado.»[7][7]
O castelo de Krasznahorka é outro local de terror nas montanhas
da Hungria do Norte, onde repousariam os despojos de uma mulher vampiro morta
há mais de duzentos anos.
Há mais de cinco séculos fora propriedade da antiga família Bebek.
Istvan Bebek, antepassado da família, era um simples pastor na altura das
invasões dos tártaros, pelo ano de 1241. Um dia, quando apascentava o seu
rebanho na montanha de Som, encontrou certa quantidade de ouro escondido e uma
pedra com um aspecto singular.
Esteve para deitar tudo fora, mas logo se lembrou de que os filhos
gostavam de brincar com coisas brilhantes. Depois, em casa, apercebeu-se de que
a estranha pedra brilhava de noite. Conta-se que tornou a ficar com ela dando
em troca, aos filhos, qualquer brinquedo preferido, e que se servia da pedra
para iluminar a casa, como se se de uma tocha se tratasse.
Um mercador que por lá passou, vendo a candeia do pastor, ofereceu por
ela cem dinares. Bebek não tinha falta de dinheiro mas, como gostaria de
comprar uma vaca que lhe desse bom leite, esteve quase a fechar o negócio.
Os filhos tanto se lastimaram e choraram com a idéia de se privarem da
pedra mágica que Bebek rejeitou o negócio, dizendo que resolvera não a vender.
A notícia depressa se espalhou. Os proprietários dos arredores não
deixavam de massacrá-lo por causa da pedra. Temendo ser morto por causa desse
tesouro, resolveu levá-lo ao rei Bela IV e oferecer-lhe. Coincidiu com o
momento em que os Tártaros se retiravam, deixando atrás de si tudo destruído a
ferro e fogo. Para o rei, este presente chegou na hora certa, era o maior
diamante que este já vira, pelo que perguntou a Bebek o que queria que ele lhe
desse. Prometei-me unicamente sete currais construídos nas minhas terras,
Majestade.
O rei acedeu de bom grado. Bebek partiu, e com o ouro que guardara
construiu sete castelos. E assim que apareceram os castelos de Torna, Esnek, Solyomk, Pelsóc, Szádvár e Krasznahorka.
Os descendentes do pastor foram considerados aristocratas e fizeram de
Krasznahorka residência d família... até 1575, quando Péter Andrássy ocupou o
lugar de governador do castelo.
Sua mulher, a jovem Zsófia Serédy, era uma apaixonada das práticas
negras. A biblioteca do castelo transbordava de obras de ocultismo e nas noites
de Inverno Krasznahorka recebia artistas e praticantes de magia, da Hungria, os
que se lembravam ainda as exacções de Vlad Drakul – o príncipe Drácula – de
Hermann e de Bárbara de Cillei. Os sortilégios romenos reavivavam à luz de
tochas, nas salas do andar inferior do castelo. Zsófia Sérédy morreu de embolia
durante o assalto ao castelo, feito pelo seu próprio filho Jancsi, para
esmagar, terá ele dito: «esse feudo de magia negra».
Ainda hoje, numa das divisões do castelo de Krasznahorka, se encontra,
deitada num caixão de vidro uma bonita senhora! E ela Zsófia Sérédy. Eis como
passados duzentos anos ela dorme, sem que em pó se tenha tornado! O
cadáver é exibido como fenômeno pois que se mantém como tendo morri do no dia
anterior.
De tempos a tempos o vestido fica feito em pó. Voltam a vesti-la com
outro fato preto. Ela, porém, continua imperecível.
É também curioso assinalar que o seu antebraço direito, imobilizado ao
morrer, mantém-se um pouco elevado e com um dos dedos hirto como fazendo
qualquer sinal.
Porquê esse sinal? Que quereria ela dizer nos seus últimos momentos de
vida? Conta-se por lá toda a espécie de coisas, mas esta é de todas a mais
espantosa... Os praticantes da velha magia turca reconhecem-se através deste
sinal, ao qual Von Sebottendorf, grão-mestre da Sociedade Thule e amigo de Bram
Stoker, já aludira.
O índex esticado corresponderia a fogo. Von Sebottendorf afirma
que «conjugado o A –que faz nascer o elemento líquido – com I que se forma com
o indicador estendido, permitirá ao discípulo ultrapassar os limites da morte,
em plena consciência. Alcançar pois a Imortalidade!»[8][8]
TERCEIRA PARTE
Vlad-Dracul
Senhor da Valáquia
Na Transilvânia, a uma altitude vertiginosa acima de uma
paisagem selvagem, toda florestas e ribeiros, eleva-se uma cidadela inacessível
onde, enclausurado voluntariamente, vivia noutros tempos um príncipe...
Este solitário não tinha senão um único fim: transpor os limites da
morte e entrar vivo na eternidade. Drácula, eis o nome deste amante das
ciências malditas. Nosferatu, isto é: o «não morto», aquele que não
morre nunca.
Como ele, outros senhores poderosos transformaram os seus castelos
romenos em ninhos de águias, ficando discípulos do Anjo Negro, Lúcifer. Esses
sim, praticam o verdadeiro vampirismo, alquimia do sangue e da morte.
Nosferatu pode escrever-se só no plural porque não há só um nosferatu.
Se Drácula, o príncipe Vlad Drakul, cuja história romena recorda, é considerado
como o soberano dos adeptos da noite, ele não é único «não morto». Outros
pertenceram ou ainda pertencem a essa cadeia onde os segredos do sangue se
transmitem do mestre para o discípulo.
Os vampiristas conhecem o ritual de chamamento à vida, o ritual do
despertar que se pode encontrar no Livre Sacré d’ Abramelin le Mage. Foi
a partir deste manuscrito[9][9] que formou a primeira cadeia dos «não
mortos» que se espalharia pela Europa inteira.
No âmbito da magia e terror tal como se passa com os elfos[10][10], os papões, as fadas, o lobisomem etc.,
nós vimos o vampiro aparecer com rara constância nas lendas e tradições
populares. No entanto, a lenda não é somente uma «crença popular», uma vaga
superstição de que nos lembramos. Ela pertence sempre a uma realidade
esquecida, temerosa.
A história revela-nos que o conde Drácula não era conde mas príncipe e
que reinou em Valáquia, província dos Cárpatos,de 1456 a 1462. É também
conhecido pelo nome de Vlad Tepes, o que quer dizer vlad o empalador. O
historiador Florescu descreve-o como especialista em empalamento e tortura,
homem sanguinário e destemido guerreiro.
«Ele empregava», escreve ele, «estacas e lanças que precisavam ser
afiadas, para que as perfurações não provocassem imediata agonia e antes
intensificassem o sofrimento dado o tipo de chaga alargada que daí resultava.»
A Romênia – especialmente a Transilvânia de século XV tem a marca do
vampiro. Tudo, desde a busca mágica do príncipe Drácula, a criação da Ordem do
Dragão por Segismundo I da Hungria que se tornou ponta de lança da cavalaria
das trevas, uma ordem vampírica a que toda a aristocracia da Transilvânia
aderiu, os Drácula, os Garai, Cillei e outros, tudo ali existe.
A crueldade de vlad ficou na lenda.
«Ele foi vlad Tepes, o tirano. Nada o satisfazia tanto como ver
os seus inimigos no estertor e sofrer quando empalados. Conta-se que no meio
dos moribundos suspensos de estacas ele se fazia servir das mais lautas
refeições, para mostrar que o espetáculo cruel e a forma de matar os inimigos
não lhe roubava o apetite.» (F. R. Dumas.)
Em Târgoviste ele empalou, na Páscoa de 1459, quinhentos Boyards. A 24
de Agosto de 1460, os anais da Romênia precisam que ele matou – após torturas e
suplícios – 30 000 prisioneiros em Anilas:
«Assassinou alguns fazendo passar por cima deles os rodados de carros.
A outros, despojando-os das suas roupagens, arrancou a pele até às entranhas.
Assou alguns sobre brasas, atravessados por espetos e a tantos perfurava-lhes
as nádegas com estacas que saíam pela boca... e parra que nada fosse esquecido,
quanto a atrocidades possíveis, espetou, a uma mãe, os dois seios colocando-lhe
por cima o filho ainda bebê.»
Enfim, matou de muitas e diversas maneiras, torturando com a ajuda de
utensílios, fazendo atrocidades que só o mais tirano dos tiranos poderia
conceber.
O papa Pio li ficou horrorizado. O bispo d’ Erlau, em 1475, secundou a
acusação de que o número de vítimas do príncipe Drácula se elevava a mais de
cem mil pessoas.
Sendo ele cristão ortodoxo, a sua excomunhão tê-lo-ia atirado para os
infernos! E não foi citado que, após ter conquistado Kroonstadt, fez dos seus
habitantes prisioneiros levando-os para a capela de S. Jacques, para a Igreja
de S. Bartolomeu e para o mosteiro de Holtznetya onde, depois de roubar os
paramentos e os cálices, deitou fogo aos edifícios com as pessoas lá dentro,
matando todos os que ali se encontravam.[11][11]
Com a aparição de um tal Eleazar, chegado do Egito, detentor do famoso
Manuscrito de Abremelin, é que tudo afinal começou...
Uma seita do Egito revelou-lhe os mistérios da morte e as técnicas que
permitiriam obter-se um aspecto de imortalidade. Chegado a Veneza, transmitiu
para a escrita tudo o que ouvira da boca de Abramelin, no Egito. É em Veneza
que põe em prática a sua ciência sobre os mortos... de um modo eficaz e
terrífico. Alguns jovens mais ousados agruparam-se à sua volta e formaram o
primeiro elo desta cadeia européia. Este saber vinha das práticas de Osíris, o
deus dos mortos-vivos do Egito, aquele que foi desmembrado antes de se tomar imortal.
Nas primeiras páginas do manuscrito maldito, Abramelin revela através
da escrita de Eleazar: «Imagina a que ponto a nossa seita se tornou maldita que
ultrapassa o gênero humano... de tal modo que em ti , não se manterá para além
de uns setenta e dois anos... e outra virá continuar-lhe caminho.»
O discípulo de Abremelin deixou Veneza, onde ficou um grande número de
partidários que se instalou na ilha de Lagune, ilha essa onde noutros tempos se
orara ao dragão das águas, o que prova que nada se escolhe por acaso...
Eleazar chegou à Hungria, onde se tornou conselheiro, em matéria de
ocultismo, do imperador Segismundo, iniciando-o nas práticas de Abremelin.
O imperador da Hungria acabava assim de descobrir uma resposta para as
suas angústias, um remédio para o seu temor à morte. Aconselhado por
Eleazar fundou a Ordem do Dragão na mitologia do sangue.
Vlad o Diabo, príncipe da Valáquia e pai de Drácula, pertencera a esta
Ordem, onde foi iniciado nos mistérios do sangue segundo os ritos de Abremelin.
A seguir à morte de Vlad, Drácula subiu ao trono de Valáquia.
Segismundo da Hungria doou-lhe as terras, feudos de Almas e Fagaras situados na
outra vertente dos Cárpatos e é sob a bandeira do Dragão que ele combate os
turcos, depois de prestar vassalagem ao grão-mestre da Ordem.
Na Ordem do Dragão vamos encontrar os grandes adeptos vampiros da
Romênia, homens de armas e ao mesmo tempo praticantes da velha magia. As
famílias Garai e Cillei, são conhecidas pela sua crueldade e despotismo,
autênticas «eminências pardas» do imperador Segismundo. Hermann de Cillei foi o
exemplo vivo desta aristocracia infernal!
As relações pervertidas que
mantinha com a irmã bárbara tornaram-se do domínio público mas Hermann de
Cillei gozava com o escândalo para o qual ele e sua irmã viviam.
Foi nessa altura que Segismundo I tentou a grande experiência do livro
de Abramelin. Ele estava apaixonado por bárbara de Cillei que, ainda nova,
cansada pelos seus excessos debochados, acabava de se envenenar.[12][12]
bárbara de Cillei fora por muito tempo das cúpulas da ordem.
Segismundo serviu-se do ritual próprio para ressuscitar esta jovem, segundo nos
conta Eleazar através dos seus documentos.
O castelo de Drácula
Bárbara foi enterrada em Gráz, na alta Síria. Algum tempo depois, os
seus despojos foram transportados para o castelo de Varazdin. Foi ela a
inspiradora da obra prima da literatura vampiresca do século XIX: Carmila, de
Shéridan Le Fanu.
Bárbara Cillei, a quem chamavam «a Messalina alemã», perturbou durante
muito tempo a sua região, a acreditar-se nas crônicas da época.
O seu duplo ter-se-ia manifestado em 1936, em Varazdin, na atual
Jugoslávia, e causou a morte a seis pessoas muito novas da aldeia. Na
Transilvânia, a natureza oferece à vista profusão desordenada de montanhas que
protegem estreitos vales, tornando assim o acesso muito difícil. Os cumes
desnudados ergem-se sobre as aldeias, como que para lembrar as glórias antigas
na época em que os enormes penedos suportavam verdadeiras fortalezas de
muralhas sombrias, de maciças torres.
Foi aí que, fechado no seu ninho de águia, Hermann de Cillei escreveu
a sua Pratique de Vampirisme, deixando às gerações futuras um verdadeiro
manual de técnica (o segredo da «horrível transformação» transmitia-se entre as
famílias da nobreza da Transilvânia, os Garaï, e os Dráculas, todos nobres da
Ordem do Dragão).
«O vosso corpo imortal já existe», escreve Hermann Cillei. «Fazei
crescer esta outra realidade em vós, tornai-vos confiante, deixai-vos possuir
pelo Real. Sede aquele que nunca dorme, não sucumbe aos automatismos, nunca se
esquece de si próprio nem um segundo, um ser que vence o coma e a morte. O
vosso corpo prosseguirá. Como poderia ele resignar-se à lei da decomposição? O
vosso espírito despertado retém as moléculas da carne. A partir de então o
corpo não soçobrará, pois é a falta de vitalidade, de força anímica, que fazem
o corpo tornar-se em pó. E o mesmo que tirar as pedras de cunha a uma casa.
»Em primeiro lugar é preciso agir sobre o nosso duplo astral, torná-lo
autônomo, forçá-lo a sair do corpo, ensiná-lo a errar no plano astral,
ensiná-lo a viver sem depender do corpo e dos seus hábitos. Logo que o duplo se
souber governar perfeitamente, pode então a consciência abandonar o corpo e vir
habitar o duplo. Depois da morte continuará a errar. Deveis pois alimentá-lo
com a vitalidade que o vosso sangue contém.»
Pode imaginar-se facilmente Hermann Cillei metido numa das torres do
seu castelo, fixando a chama hipnótica da vela, escrevendo o manual de
vampirismo, já entre este mundo e o outro. Ouve vozes confusas vindas do
passado, vê cenas terríveis de que as montanhas foram testemunhas... O vale
está povoado por seres fantásticos, sombras que deslizam ao cair da noite...
olhos que espreitam entre a escuridão...
A maldição plana como um abutre sobre os castelos da Transilvânia.
Bárbara de Cillei morreu envenenada. A mulher de Drácula atirou-se do alto da
torre do castelo, em 1462. Drácula voltou a casar-se – sem a bênção da igreja –
e vive então na fortaleza de Sibiu. O filho, Mihnea, é tão mau como o pai.
Alcunharam-no de Mihnea, o Mau. Também ele pratica decapitações,
carnificinas, cortes de orelhas, empalamentos e estuda as «ciências» malditas
para fugir à morte.
O príncipe Drácula – vlad Drakul – foi morto pelos turcos numa emboscada
perto de Bucareste. Tinha 45 anos, e «foi enterrado subrepticiamente no
mosteiro de Snagov sob uma laje sem inscrição. Quando em 1931 foi aberta a
sepultura constatou-se que os seus despojos tinham desaparecido».
Que é que se passou? pergunta Ribadeau-Dumas: «Os monges do mosteiro
de Snagov, na floresta de VIasie, no meio de um grande lago, como existe um em
Bucareste, mergulharam o caixão nessas águas ao ver chegar os turcos
vitoriosos. Depois de afundado nunca mais se encontrou o caixão. Conta-se que
no momento em que o mergulharam na água, teria surgido uma tempestade violenta,
deitando árvores abaixo, rebentando os diques do lago, incendiando o mosteiro
que desabou em seguida. Aos camponeses pareceu-lhes ouvir durante muito tempo
tocar os sinos da igreja, igualmente arrasada nesta onda de destruição. Aquele
lago ficou amaldiçoado!
»No século XX reconstruíram a igreja do convento, mas a nave abateu
aquando de um tremor de terra em 1940. Hoje, apenas um monge ora nesta ilha,
pelo repouso da alma do príncipe Drácula.»
Para se chegar ao castelo de Drácula, na Transilvânia, é preciso
transpor o vale de Ollul, trepar o desfiladeiro da «Torre Vermelha», onde ainda
existem ruínas de uma fortaleza militar. Estas ruínas levantam-se sobre a
margem direita de uma ribeira, no alto de uma enorme falésia perpendicular à
estrada. Encontramo-nos nas nascentes do Arges, por cima das quais brilha a
neve dos montes Fagaras.
As aldeias são pobres, as casas modestas, os habitantes mais duros e
menos sociáveis e hospitaleiros que os de outras províncias da romênia. A uns
trinta quilômetros a jusante encontra-se a aldeia de Arefu onde lá em cima se
ergue o ninho de águia de Drácula.
Numerosas lendas relatam a construção do castelo do terror. As
crônicas da época dizem que Vlad Draklul reuniu trezentos nobres romenos na
sala grande do seu palácio de Târgoviste, oferecendo-lhes um banquete suntuoso.
Durante a festa, colocara à volta da sala os seus arqueiros que, a uma ordem
sua, aprisionariam os convidados. E, como um rebanho, fez seguir os seus
convidados até Arefu, onde chegaram dois longos dias depois.
Numerosas mulheres e crianças, diz a crônica, não agüentando a
caminhada, pereceram a meio. Os que sobreviveram, logo se agarraram ao trabalho
sob as ordens do príncipe Drácula. E assim construíram a fortaleza de Curtes de
Arges, que seria mais tarde o ninho de águia do príncipe.
«A história não esclarece quanto tempo levou esta construção.
Escravizados, acabaram por ver suas roupas cair, continuando a trabalhar nus;
prosseguiram até tombar mortos pela fome, fadiga, frio e esgotamento...»[13][13]
Foi assim com sangue que se construiu a fortaleza. Como se o suor, o
sangue, a carne dos cadáveres tivessem servido de argamassa a esses
pedregulhos.
O caminho que vai de Arefu ao castelo é duro. Uma hora a andar, antes
de se atingir algumas pedras daquilo que foi uma das mais poderosas fortalezas
de Valáquia. A vista é vertiginosa, distinguindo-se a mancha vermelha das
aldeias espalhadas pelos contrafortes alpinos. Lá longe, para norte, luzem os
picos de neve dos montes Fagaras.
No pátio do castelo o visitante apercebe-se dos vestígios de uma
abóbada, toda coberta de vegetação. Muito perto, vê-se a parte de cima de um
poço, cheio de pedras, como se as muralhas do antigo castelo tivessem sido
aspiradas pelo abismo, obstruindo para sempre a entrada do mundo subterrâneo.
Ao lado do poço há uma escada enterrada no solo, sem dúvida uma
passagem secreta, de que muitos relatos falam, com acesso a uma gruta que os
camponeses de Arefu chamam Privnit (A cave), situada na margem de uma
torrente. Passados alguns metros de escuridão surge um montão de pedras que
barram o subterrâneo.
Os camponeses da região comentam muitas vezes sobre o castelo maldito
mas hesitam em ir até lá, pois que o sombrio herói de Bram Stoker assombraria
para sempre aqueles lugares.
Para Radu Florescu – o histonador romeno –. «Além da águia e do
morcego, as ruínas são frequentadas pelas raposas que procuram os ratos e
alguma ovelha ou carneiro que, extraviados do rebanho, caíram num buraco e,
prisioneiros no matagal, ali venham a morrer.
»O regougar que os cães selvagens soltam à Lua, sobretudo quando
respondem aos uivos, resulta num concerto noturno que não se ouve sem um
calafrio. De vez em quando também um urso ou um lince descem os montes Fagaras
até aí; mas os visitantes verdadeiramente perigosos são os lobos. Se Bram
Stoker escoltasse a parelha de Drácula com as matilhas uivantes para os lados
de Borgo, aqui, no alto vale de Argens, as pessoas seriam com certeza atacadas,
pois a desolação de Inverno torna esses animais raivosos. Compreende-se assim
que pernoitar no castelo de Drácula seja considerado um desafio à morte e mesmo
os mais ousados raramente o fazem».[14][14]
Diz-se que em Arefu os raros aldeões que de noite vão ao castelo, só
se aventuram levando consigo um velho missal que, afirmam eles, afasta «os
espíritos do mal que rondam pelas alturas».
O vale dos imortais
No seu romance Drácula, Bram Stoker garante ter
encontrado, em 1880, um professor Arminius, da universidade de Bucareste que
lhe entregou um dossier «respeitante a V1ad V, filho de V1ad, o
Diabo» atestando que depois da morte brutal, da sua inumação na ilha de
Snagov, seguido do famoso cataclismo que arrasou a ilha, Drácula reapareceu
como «vampiro».
«Pedi ao meu amigo que pusesse em ordem o seu dossier. Todas as
fontes de informação levam a pensar que Drácula foi um voïvode[15][15] que ganhou o seu apelido ao combater
os turcos no grande rio, sobre a fronteira da terra turca. Sendo assim, não se
trata de um homem vulgar, porque no tempo dele e nos séculos seguintes foi
considerado o mais inteligente, o mais ardiloso e valente entre todos os que
existiam para além das florestas (Transilvânia), Levou para o túmulo esse
poderoso cérebro e um caráter de ferro que ‘utiliza agora contra nós’. Os
Drácula, diz-nos Arminius, foram uma grande e nobre raça, ainda que certos
descendentes seus (segundo os contemporâneos) tivessem pacto com o diabo.
Aprenderam o segredo de Satanás no Scholmance, entre montanhas, sobre o lago
Hermanstadt, onde o demônio se reclama, por direito, o décimo erudito.
»No manuscrito encontram-se palavras como estrgoica (feiticeira),
Ordog (Satanás), polok (inferno), e ainda se diz neste momento
que Drácula, era wampir».[16][16]
Nos contrafortes dos Cárpatos, nos vales da Transilvânia, as aldeias
fazem a época histórica dos Drácula. De longe em longe destinguem-se granjas de
madeira, para onde o camponês conduz o seu atrelado. O caminho é escarpado,
todo exposto ao sol ao longo das encostas íngremes que levam a cumes
solitários. Umas vezes aparece uma cabana de caçadores, um cal vário... meio
engolido pela vegetação. Outras vezes surge alguma ruína imponente coroando a
colina, os muros de uma antiga fortaleza colocada de sentinela à entrada de uma
garganta profunda, ao fundo da qual brilham como um espelho as águas de
uma ribeira.
E fácil compreender por que este território
inacessível foi noutros tempos a pátria dos Dácios, «o vale dos imortais», que
os antigos gregos veneraram.
Num livro misterioso, chamado L’ lcosameron[17][17] Giacomo Casanova –
gentil-homem veneziano, libertino, filósofo e mágico – conta-nos de um povo que
vivia no subsolo da Transilvânia, os Mégamicres, bebendo sangue para se
tornarem imortais:
«Que belo alimento era o leite dos Mégamicres!... Pensamos que
nada de fabuloso nos ensinara a mitologia, que estávamos no verdadeiro
domicílio dos imortais e que o leite sugado por nós representava o néctar, a
ambrósia[18][18], que iria sem dúvida dar-nos a
imortalidade de que todos deviam desfrutar... Esta refeição durou uma hora e
penso que teríamos ainda continuado não fora verificarmos com pavor algumas
gotas que caíram dos seus mamilos para o nosso peito. Pela cor percebemos que
era sangue.
»Intermináveis corredores ligam o mundo subterrâneo dos Mégamicres à
região do lago Zirchnitz, na Transilvânia, que Casanova descreve como um ‘reino
de grutas e de trevas’.»
Quais são os deuses venerados pelos Mégamicres, em
Icosameron? Lendo a descrição que Giacomo Casanova nos faz, pensamos nos
vampiros que povoam a tradição de Europa central:
«...Os deuses dos Mégamicres são répteis. Têm a cabeça muito
parecida com a nossa, mas sem cabelo. Nada é tão doce e sedutor como o seu
olhar, quando se fixa. De dentes são brancos e bicudos, mas nunca se vêem por eles
terem sempre os beiços fechados. A voz é apenas um horrível silvo que faz
ranger os dentes e gelar o coração. O povo dos Mégamicres dedicam-lhe 1m
culto religioso.[19][19]
»A vida e a morte de Casanova continuam misteriosas. Foi preso em
Veneza, pela Inquisição, acusado de magia e fechado nos esgotos do Palácio
ducal, donde conseguiu fugir e correr a Europa. Manuzzi – espião dos
inquiridores de Veneza, conseguiu apoderar-se de livros e documentos
manuscritos em sua casa, tais como as Clavicules de Salomon, as obras de
d’Agripa, e o Livre d’Abramelin le mage (publicado em Veneza).
No seu L’ Icosameron, Casanova revela que os Mégamicres são
os inimigos do envelhecimento, e que nunca envelhecem:
«O sono profundo», escreve ele, «uma tão perigosa languidez, que é
visível que nos faz envelhecer e acelera o ritmo das nossas vidas...»
Sabe-se que Drácula foi enterrado na ilha de Snagov, à entrada da
igreja do mosteiro, e procedeu-se as várias buscas em vão. O túmulo está vazio,
acontecendo o mesmo com o de Giacomo Casanova, enterrado no parque do castelo
de Dux, na Boêmia, sob uma pedra tumular rodeada por um gradeamento. Depois foi
transladado para poucos metros de distância, perto da entrada da pequena igreja
de Santo Eustáquio, na margem de um pequeno lago...
Hoje não existem nem as lages sepulcrais nem gradeamento! Que
coincidência tão estranha até à morte... Drácula e Casanova!... Coincidências
ou conjugações de forças secretas para lá da nossa compreensão?... Os imortais
bebedores de sangue de Giacomo Casanova viveram em tempos longínquos na
Transilvânia, perto do lago Zirchnitz, numa região de «grutas e trevas».
A Transilvânia foi a pátria dos dácios muito antes da era cristã. Os
gregos acreditavam que este enclave de montanhas era o «Vale dos imortais».
A antiga terra dos dácios era pagã. «Aí existiam, governados pela
misteriosa deusa Mielliki, as forças dos bosques, enquanto a oeste a montanha
de Nadas tinha o vento como único habitante. Havia um deus único, mas nos
Cárpatos supersticiosos havia sobretudo o diabo Ordog, servido por feiticeiras
que, por sua vez, tinham ao seu serviço cães e gatos pretos. E tudo vinha dos
elementos da natureza e de suas fadas... No meio das árvores sagradas, de
carvalhos, de nogueiras fecundas, celebravam-se secretamente os cultos do Sol e
da Lua, da aurora e do cavalo preto da noite.»[20][20]
Testemunhas da Grécia antiga recordam ter visto legiões de dácios em
pé de guerra, armados de escudos, trazendo a efígie do dragão nas armas de
guerra.
Para os raros viajantes da Antiguidade, este povo selvagem
corresponderia aos Hiperboreanos da mitologia, os homens-deuses que venceram a
morte e reinaram na ilha de Thulé (Os filósofos gregos e pessoas que em viagem
citam a Dácia hiperboreana).
Os dácios consideravam-se imortais. Tinham – acreditavam eles – o dom
de se transformar em lobo ou em morcego, de voar, de dialogar com os deuses no alto das montanhas. Os lugares escolhidos
para os rituais eram sobre os picos rochosos, no interior de grutas
inacessíveis. E sobre estes cumes que os grandes senhores – Drácula, Garal, Cillei – construíam seus ninhos de águias.
A suprema autoridade religiosa
dos dácios, aquele que detinha os segredos da vida e da morte, viveu, ma das
florestas da Transilvânia, no cimo de uma montanha agreste na qual construíram
um templo. Supõe-se hoje que tivesse sido o monte Cugu, que se eleva a três mil
metros de altitude nos confins de Banat e da Transilvânia.
Para os «padres» dácios, a
divindade suprema chama-se Zalmonix. E ela que preside à iniciação.
Entre Zalmonix e os sacerdotes
de Transilvânia existem outros seres que servem de intermediários entre os
homens e a divindade suprema. Estes seres seriam eventualmente os vampiros ou
mortos-vivos, isto é, aqueles que venceram a morte e que têm o poder de voltar
ao meio dos homens, segundo a sua vontade.
O príncipe romeno
Bursan-Ghica, exilado em Paris desde os anos 50, recorda ainda as velhas lendas
da Transilvânia:
«Para comunicar com Zalmonix,
os dácios têm de recorrer a mensageiros. Escolhem por isso os irmãos mais avançados
em magia, aqueles que ultrapassaram o limiar da iniciação. Estes eleitos são os
sacrificados. Os dácios trespassam-nos com as pontas das suas lanças. Mas sete
dias depois, os corpos trespassados saem do túmulo e juntam-se aos outros.
Tornaram-se imortais e farão de elo entre os Dácios e Zalmonix. Naturalmente
que as lanças foram substituídas por agudas estacas que se plantavam na terra.
Compreendem agora a realidade secreta da estaca dentro do vampirismo, e a razão
por que o Drácula foi alcunhado de vlad, o empalador?...
Para certos ocultistas,
fanáticos do vampirismo, o príncipe Drácula não seria um guerreiro sanguinário
ao empalar as suas vítimas para seu prazer... antes cumpria as práticas
da magia antiga e dos Dácios, seus antepassados, os imortais da Transilvânia.
Em 1462, Vlad Drakul foi preso na Hungria, na torre de Salomão,
palácio de Visegrad. Segundo Kurytsint um diplomata russo, Drácula mantinha
excelentes relações com os guardas. Fez-lhes um pedido que não deixa de ser
curioso! Desejava que lhe arranjassem ratazanas, ratinhos, pássaros e outros
animais pequenos.
Que razões secretas o levariam a tal? Kurytsint que estudou Drácula
narra que ele empalava estes animalejos e os dispunha em redondo ou em cepa,
espetados em raminhos afiados sobre o chão da sua cela. Os cronistas referem as
distrações atrozes, de um sadismo monstruoso. As obras recentes acerca do
personagem histórico Vlad Drakul (entre eles o livro do historiador Romeno
Florescu) são bem o testemunho da opinião do autor quanto a tratar-se de
perversões psicopatológicas. Apenas os ocultistas e os adeptos do vampirismo
viram nelas o ressurgimento da antiga magia Dácia oferenda oculta único vínculo
possível com Zalmonix deus dos vivos e dos mortos nas antigas crenças da
Transilvânia.
No país dos bebedores de sangue
A família dos Dráculas estende as suas horríveis ramificações por toda
a Europa. Irmãos, primos e primas, formam todos uma espécie de teia de aranha
venenosa cuja mordedura matará; é como que uma poluição oculta que se infiltra
por todo o lado e se espalha como um veneno. Decadência e obsessão reinam em
pleno nas almas pervertidas dos Drácula como o prova a história da condessa
Bathory. Esta familiar do príncipe Vlad Drakul, senhor da Valáquia, domina a
nobreza austro-húngara pela sua crueldade e luxúria. Ela vivia, «sem luz e sem
cruz» – diz-nos Valentina Penrose.
«O seu espírito era desleal e supersticioso. Erzsébet Bathory
experimentou várias crises de possessão. Nunca podia prever-se quando tal
aconteceria. De repente surgiam violentas dores na cabeça e nos olhos. As
criadas traziam feixes de plantas frescas e narcotizantes, enquanto sobre o
lume se preparavam drogas soporíferas onde se iriam embeber esponjas para se
passarem a seguir pelas narinas da paciente.» (Penrose).
Um dia a condessa, irritada, bateu a uma das serviçais. Logo o sangue
jorrou e caiu sobre o seu braço. Tudo se precipita para fazer desaparecer o
sangue, mas entretanto ele coalhara. Quando por fim se conseguiu limpar a
mancha, a condessa contemplou a mão, surpreendida. «No sítio onde o sangue
estagnara por alguns minutos, ela viu que a carne tinha um brilho translúcido,
como o de uma vela iluminada por outra vela.»
Estamos na fortaleza dos Bathory, sobre a fronteira austro-hungara, no
fim do século XV. Um mundo fechado, feito de solidão, neve e altas muralhas.
Nesta região secreta, desenvolvem-se as mais surpreendentes
mitologias, mas se se tentar aprofundar um pouco mais para além do mito a
realidade é por vezes bem mais aterradora que a própria lenda em si.
Na Hungria, o vampirismo é um título de nobreza como outro qualquer,
com a única diferença que doseia o horror e a veneração de uma forma que cada
pessoa sente a magia do sangue ainda que a aristocracia construísse os seus
castelos no inferno.
Para o mundo de hoje, o vampiro húngaro veste uma camisa de peitilho
arrendado, uma capa de cetim negro com dupla face vermelha, à moda dos poetas
românticos. Mas quando o coração já não responde a paixões humanas e as
mulheres o deixam insensível, a única beldade que lhe diz algo é a do sangue, e
vive na angústia da estaca aguçada que trespassará o seu peito. Mas no cinema o
vampiro é um modo de exorcizar a verdade, de esconder o verdadeiro rosto dos
Drácula, que nada tem de comum com o fantasma da ópera...
No século XV, os vampiros não existem para manter o comércio de
imagens de Epinal, mas para a crueldade e perversão que matem ou endoideçam.
Como se viu, a atribuição do nome de Drácula ao arquétipo do
vampirismo juntam-se à idéia base de a serpente ou de o dragão (Drakul, Drak =
dragão) guardarem o segredo do sangue. O brasão dos Bathory tem a enfeitá-lo o
motivo de um fantástico dragão.
Nas campanhas húngaras, amedrontado, o homem reconhece as virtudes do
sangue. Não é mais nem menos que essa «água de rejuvenescimento» que os poetas
tanto cantaram... mas existe o medo, a maldição, a infelicidade para quem tente
violar os segredos do sangue eterno, pois que como revela o Levítico: A alma
da carne está no sangue.
Desde muito cedo que Erzsébet Bathory contactou com «o leite venenoso
dos sonhos». As lendas que embalaram a sua infância foram povoadas de homens e
mulheres vampiros à procura da bebida encarnada que imortaliza.
Casada desde os 15 anos, a sua residência é no castelo de Csejthe, a
nordeste da Hungria. O marido, valoroso guerreiro, é alcunhado de «herói
negro», combatente valoroso, freqüentemente em guerra com turcos e habsbourgos.
Com 20 anos, idade em que normalmente se freqüentam bailes e recepções
na aristocracia húngara, a prima do príncipe Drácula vive numa quase total
reclusão. Amantiza-se com o intendente Thorbes, que a inicia em feitiçaria e
que, tendo-a casado com Satanás, lhe transmite os ritos secretos da seita de
«Ave negra» – sociedade secreta à qual ele pertence – tais como este:
«Agarrai uma galinha negra, e batei-lhe com uma bengala branca até ela
morrer. Recolhei o sangue com que tocareis o vosso inimigo, que perecerá de
esgotamento ou acidente. Se não for possível tocar-lhe diretamente, colocai um
pouco do sangue sobre as suas roupagens.»
A Ordem da Ave Negra mantém estreitas e subterrâneas relações com a
Ordem do Dragão de Segismundo da Hungria. Erzsébet participava nas reuniões de
magia com Thorbes, com a sua ama, as duas criadas e o mordomo Johannès Ujvary.
Logo que enviuvou, dispensou a companhia de sua sogra e dos
subordinados do marido, para se entrega tranqüilamente aos ritos mágicos
ensinados por Thorbes.
Uma certa manhã, quando uma das criadas a penteava e acidentalmente
lhe arrepelou um pouco os cabelos, logo a esbofeteou. Fê-lo com tal violência
que a pobre da rapariga começou a sangrar do nariz. Algumas gotas caíram então
numa das mãos da condessa. Afastando as serviçais mandou chamar duas almas
danadas, Thorbes e Ujvary, e informou-os em tom excitado:
«O sítio onde o sangue desta mulher me atingiu deixou a minha pele
firme, voltou a ter um aspecto de juventude.» E foi desta forma que a condessa
Bathory por um simples acaso, reconheceu quanto o sangue era eficaz. A angústia
do envelhecer, o aparecimento das rugas, o perder da juventude e beleza como
que encontrava de repente uma paragem, um remédio, porque o sangue poderia
enfim conservá-la nova e bonita. Neste seu delírio ela já admitia que banhos de
sangue poderiam resultar na flexibilidade do corpo e no não envelhecimento.
Então, durante dez anos, Erzsébet Bathory ordenou que fossem degoladas uma
centena de raparigas camponesas, com a cumplicidade de terceiros, mandadas sob
diversos pretextos para Csejthe.
Em Novembro de 1610, uma das vítimas conseguiu fugir antes de ser
condenada à morte. O rei Mathias II, conhecedor do caso, encarregou o conde
Thurzo de investigar as estranhas práticas da condessa. A 30 de Dezembro de
1610 o conde forçou a vedação do castelo de Csejthe. Na sala grande da torre de
mensagem, descobriu horrorizado um cadáver em cujo corpo não havia gota de
sangue, vasos cheios de sangue ainda não coagulado, e um moribundo barbaramente
torturado. Submetido a interrogatório, o mordomo Ujvary confessou ter
participado em trinta e sete assassinatos rituais. Uma tesoura, manejada por
Erzsébet Bathory, substituía o punhal sacrifical. Os servos desta estranha
missa do sangue recolhiam-no para depois prepararem os banhos de juventude de
Erzébeth cuja aparência jovem, comentavam os juízes, «não podia ser senão de
origem diabólica».
A condessa confessou arrogante e friamente os seus crimes. Os dois
necromantes foram condenados à morte. Arrancaram-lhe as unhas, cortaram-lhes a
língua, espetaram-lhe os olhos e por fim queimaram-nos em fogo lento.
Erzsébet foi condenada a confessar a sua culpa e a ser decapitada. A
sentença foi comutada, tendo em vista a sua origem e posição, para prisão
perpétua «a pão e água». Veio a morrer em 1614, passados anos, encerrada entre
as paredes de uma das salas do seu
castelo.
Esta triste história desenrolou-se há muito tempo numa região onde
reinava a superstição e o terror. Aos sacerdotes ortodoxos foi bastante difícil
desenraizar as antigas prátIcas, o culto do sangue, os pactos das possessões
diabólicas. Embora os tempos tivessem mudado as coisas, a verdade é que o
fascínio mórbido do sangue perturba sempre os cérebros fracos. Em 1941, o
professor Léonard Wolf, da Universidade de São Francisco publicou com o título Dream
of Dracula tudo o que se lhe oferecia sobre os casos de vampirismo recente,
declarando: «[...] existem na Califórnia seitas que praticam a magia do sangue
para evocar os mortos e obter os poderes da noite. Assim o provam as práticas
de uma seita de Monterey, que utiliza a carcaça de uma moto Sobre a qual se
matou William Tingley, o líder do grupo. O novo guru, completamente
vestido de couro negro, o tronco coberto de símbolos diabólicos, explica assim
o ritual mágico da seita:
«No metal há ainda vestígios de sangue e alguns restos de carne de
certas partes do corpo. Este sofrimento magnetizou o metal. Temos portanto,
através dele, acesso às fontes energéticas do infinito. Só o utilizamos para o
bem e esperamos que, com o tempo, outros possam vir a aproveitá-lo. O tempo não
conta para nós. Não fazemos publicidade esperando que, convencidos da nossa
força, outros homens venham dessedentar-se na mesma fonte. Nós poderíamos de
resto, se ameaçassem a nossa realidade religiosa, drenar a energia dos homens e
não a do cosmos. Se nos recusarem viver entre eles, tornar-nos-emos dependentes
de outros...»
Esta declaração é significativa quanto à patologia do vampirismo! Em
pleno século XX, ainda se faz sentir o mesmo eco... convencidos da nossa força,
nós poderíamos utilizar a energia dos outros homens. O poder sobre os outros, a
manipulação psíquica, parecem ser as duas obsessões desta seita da Califórnia.
Mas a obsessão do sangue não é só herança de seitas entregues à magia
vermelha. Por exemplo no despertar da Belle Epoque as mulheres novas
dirigiam-se aos matadouros para beberem copos de sangue da veia jugular de um
bovino, acabado de ser abatido, convencidas de ser esta a bebida que iria
dar-lhes um reforço de vitalidade. Ainda e sempre a patológica fascinação do
sangue, do seu mistério e do seu poder.
Os ritos de proteção
Certos morcegos da
América do Sul atingem um tamanho superior a oitenta centímetros. Precipita-se
sobre a vítima e, com o bico sugador fixado na jugular provoca-lhe uma espécie
de anestesia que evita a dor. Estes vampiros Spectrum, nome dado pelos
naturalistas, fazem autênticas devastações na Argentina, como se prova através
desta informação citada por R. Ambelain:
«No decorrer do ano de 1958, perto de vinte e cinco mil cabeças de
gado morreram de doença causada pelas sucções dos animais em questão.»
O poder de anestesia de que falam os pesquisadores, assemelha-se ao
beijo do vampiro se a vítima n oferecer resistência e se se abandonar à
mordedura sem terror.
Os morcegos da América do Sul segregam um líquido especial que
adormece a rede nervosa da veia jugular. A pessoa que adormece terá
simplesmente a impressão de estar com um sonho estranho, uma sensação de
dissolução agradável... enquanto o animal noturno lhe vai sugando o sangue.
O elo mágico entre o morto-vivo e o morcego é referido em todos os
documentos religiosos da Idade Média.
A visionária Anne Catherine Emmerich afirmava ter visto Jesus Cristo,
descrevendo-O detalhadamente. Confidenciou as visões que tivera ao poeta
Clemens Brentano, que as redigiu intitulando-as de Vie de Jésus Crist,
d'apres les visions de Anne Catherine Emmerich.
Numa passagem do seu livro, ela descreve Asach, na Palestina,
infestada de morcegos-demônios. As pessoas desta terra têm feito caça
aos repelentes animais malhados, de asas membranosas com as quais voam céleres.
São estes os morcegos-demônios que sugam o sangue às pessoas e ao gado enquanto
estes dormem. Vêm de densos pântanos impenetráveis e causam os maiores
prejuízos...
Para os videntes cristãos, o vampiro depressa foi considerado inimigo
de Deus, uma farsa monstruosa à luz divina, o candelabro tombado de que falam
os praticantes de magia negra.
Na iconografia cristã, o pelicano tem uma certa analogia com a figura
luminosa de Jesus Cristo, pelo fato de também aquele dar o seu sangue e a vida
para proteger e alimentar os filhos. Um poema de Alfredo de Musset, evoca o
sacrifício do pelicano, arrancando com o bico as entranhas para assim alimentar
a sua ninhada.
No outro ponto oposto, o vampiro aparece como antítese do pelicano
porque, para assegurar a sua existência, tira a vida ao homem sugando-lhe o
sangue.
O Rei David, no Salmos implora
a proteção de Deus contra os vampiros:
Livrai-me do que pratica o mal, salvai-me do homem
sanguinário.
Regressam pela tarde, ladrando como cães e percorrem a cidade... (58-3.7)
Os seus lábios são como espadas... Vagueiam à busca de alimento,
e se não se
saciam rondam a noite... (58-16)
Tal como se dissipa completamente o fumo, e ao contacto
com o fogo se derrete a cera, assim se
dissipam o ímpios na presença do Senhor. (67-3)
A oração e a fé surgiam como as mais eficazes proteções contra os
seres noctívagos. Homens e mulheres vampiros, outros sugadores de sangue e
ladrões de almas.
À noite, durante o ofício das Completas[21][21] e antes de recolher às celas os frades
recitam os seguintes Salmos:
Tu não temerás o terror da noite
Nem a flecha que voa durante o dia
Nem a peste que alastra nas trevas
È que Ele deu ordens aos seus anjos
para te protegerem em todos os caminhos
Tomar-te-ão nas palmas das mãos, não aconteça ferires
nas pedras os teus pés; poderás caminhar por cia de serpentes e
víboras.
Calcar aos pés leões e dragões No teu leito, medita, paz e
silêncio
Nos mosteiros ortodoxos, enquanto o Santíssimo está alumiado os
sugadores de sangue não conseguem entrar porque a luz brilha nas trevas. As
luzes votivas têm a mesma função. E como se cada átomo de obscuridade se
purificasse pela real presença de Deus.
Os anais do Museu Guimet publicaram um excelente trabalho sobre armas
de magia, punhais, espadas, o pentágono estrelado, que serviam, algumas delas,
para combater os vampiros da Europa Central.
Na lâmina de uma espada, uma frase grega diz-nos: A mão direita de
Cristo te persegue. Esta mão de vingança divina estendia a sua proteção
pelos mosteiros, as aldeias, os cemitérios... por todo o lado onde o homem
temesse o despertar dos mortos sob a forma de vampiros.
Numa outra lâmina de punhal, encontram-se inscrições cabalísticas em
forma de contrações hebraicas: AgIa que não é mais que a contração das
quatro iniciais da fórmula Atha Gibor Leolam Adonaï, ou seja, «Cristo é
grande na Eternidade».
A contração é uma oração que, comprimida como uma mola, pode a todo o
momento aumentar a sua força.
Makaba, gravada
sobre uma medalha, traduz o poder de Deus face aos seres da noite. Makaba é
a contração do versículo hebraico Mi Komoi'kou Boelim Adonai... isto é:
Quem de entre os deuses é semelhante a Ti, Senhor? (Êxodo XV, 11)
Pode encontrar-se nos Anais do Museu Guimet outras espadas cunhadas
com a Cruz de Cristo, contendo inscrições latinas: Ego Sund et Genus David,
Stella Splendida et Matutina... seguida da fórmula lapidar: Vade Retro
Satanás. Em França, no princípio deste século, deitava-se fogo aos morcegos
que se deixassem apanhar, apesar da utilidade dos seus serviços como insetívoros.
Este exorcismo instintivo e espontâneo é um reflexo de superstição que nada tem
a ver com o combate espiritual. E por causa deste medo se mandavam queimar os
místicos, os visionários, porque eles não falavam a língua deste mundo,
opondo-se ao entenebrecer da sua época.
Para além das superstições, existe o exorcismo real da alma, que não
precisa recorrer a espadas mágicas, punhais, ou pentágonos de estrela para
combate aos vampiros. Nos mosteiros da Europa Central, a grande proteção
residia na oração, no implorar constantemente a Deus, vivo no homem e em todos
os mundos tal como a luz do Santíssimo que invade a obscuridade sem que fique
espaço para trevas.
Nos mosteiros do Monte Athos, a presença dos vampiros não é uma
simples superstição. Terrível é aí o poder do diabo, porque o de Deus também o
é. À noite, as celas dos monges são palco das mais duras lutas, agitação,
alucinações, despertar violento, suores, pesadelos... gritos rasgam o silêncio,
como o rir dos chacais risos que sacodem as abóbadas do velho mosteiro. Os
monges escutam... benzem-se e rezam.
Jean Bies conta a sua viagem ao Monte Athos, à Montanha Sagrada, que é
também local de pelejas espirituais: «Os demônios dançam no ar. Diz-se que são
mais que os mosquitos em noite de Verão. Aqueles que os sentem à sua volta,
começam logo a rezar. Nada mais estranho que o fechar cuidadosamente as pesadas
portas, à noite, para evitar a entrada dos demônios! Toda a gente terá de
entrar até ao pôr do Sol, I senão não se lhe abrirá a porta.[22][22]
O mais poderoso dos exorcismos é ainda a Oração do Coração aprendida
segundo os ensinamentos dos Hésychastes ortodoxos que será repetir o nome de
Jesus constantemente, ao ritmo da respiração, acompanhada de um profundo
sentimento de adoração, de presença.
Nos Atos dos Apóstolos se declara: «Todo aquele que invocar o nome do
Senhor está salvo!» e S. Paulo, «Orai sempre...»
S. João Clímaco, um dos pais da Ortodoxia, propõe 7: a repetição do
nome de Jesus como arma suprema contra os demônios noturnos: «Fulmina o teu
inimigo com o nome de Jesus. Não existe nos céus nem na terra arma tão
poderosa. Shiva e Krishn, repetindo os mantras, os nomes sagrados,
afastam as tentações da noite e purificam o sono.»
QUARTA PARTE
Intacto e puro na morte
Ritos, fumaradas, incensos, aspersões, manipulações
mágicas, sempre acabam por fazer os seus
adeptos mesmo em pleno século XX como o provam numerosos casos de possessão,
feitiçaria e outras sombrias histórias que alimentam a vida quotidiana.
Os vampiros ainda mantêm as missas vermelhas, em tecnicolor, nos
ecrãs de cinema, e vêem-se atores como o romeno Bella Lugose identificar-se com
o conde Drácula e desequilibrar-se na extravagância.
Lugosi foi o primeiro grande ator do cinema americano a encarnar
Drácula no ecrã.[23][23]
Pode dizer-se que o veneno do vampirismo correu pelas suas veias,
inundou o cérebro até lhe criar a terrível obsessão. Ele já não era Bella
Lugosi, mas Drácula, e para reforçar esta suspeita saiba-se que se vestia de
capa preta forrada a encarnado, comprou um caixão acolchoado no qual se deitava
e dormia todas as noites.
Lugosi era também viciado em heroína, para acalmar angústias e evitar
os terríveis pesadelos que tinha.
Morreu louco, com o cérebro minado pela demência. Christopher Lee, que
igualmente encarnou o conde Drácula num trabalho para a sociedade Hammer Films,
confidenciou que o papel põe à prova, aflige, e que é necessário um grande
equilíbrio interior para não acontecer usurpação da pessoa que representa, pelo
conde Drácula.
Já não estamos nos mosteiros de Athos, protegidos por cortinas de
incenso ou barreiras de orações, mas na vida do dia a dia, vulneráveis no meio
de uma esquizofrênica sociedade, despojados de crença, presos às nossas
obsessões, arpoados pelas nossas angústias, tendo como única fuga o sonho ou o
tubo de soporíferos.
Os feiticeiros das antigas civilizações sabiam que o sangue e a
luxúria se associam para manipular a alma humana.
O sexo e a morte, os impulsos devoradores, a necessidade de morder, de
devorar, no amor, são apenas fantasias, mas para um cérebro fraco poderá
acontecer que esses monstros tomem forma e comecem realmente a viver dentro
dele.
Jean Boullet na revista Medicina, Arte e Saber, de Abril
de 1960, cita o exemplo de um porto-riquenho de 16 anos que, procurado pelos seus
crimes, quando a polícia de Nova Iorque o prendeu, disse: «Eu sou o conde
Drácula, diverte-me a idéia da vossa cadeira elétrica porque sou imortal e
unicamente vos peço que me considerem o rei dos Vampiros.»
O aspecto do jovem assassino chegou para surpreender os agentes da
polícia. Capa preta forrada de cetim encarnado, sapatos com fivela de prata,
peitilho rendilhado, anel largo e achatado representando uma caveira, bengala
de castão...
A zona de ressonância do conde Drácula espalhou-se para além das
montanhas da Transilvânia com a ajuda extremamente ardilosa do cinema e da
literatura.
«E tudo isto», escreverá Bram Stoker, «foi feito por ele sozinho, a
partir de um túmulo em ruínas num qualquer lugar, numa região esquecida.»[24][24]
Drácula, o homem vestido de preto. O vampiro veste-se sempre com as
cores da noite. O preto é para ele a ausência da cor, a ausência de vida, a
impenetrabilidade fascinante para além
da qual a morte pode ser vencida.
Certas lendas populares
européias falam de um estranho visitante estrangeiro, vestido de preto, cuja
aparição traz sempre consigo a morte ou a doença. Muitas vezes, crianças e
adolescentes foram surpreendidos de noite, nas cercanias de suas casas. Stiker
descreve o rei dos vampiros no seu Drácula. «Diante de mim estava um
homem grande e velho, com um grande bigode branco num rosto que parecia acabado
de barbear, vestido de preto da cabeça aos pés, sem o mais pequeno sinal de cor
onde quer que fosse...
Não estamos já na Europa do
século XV, e os feiticeiros da Idade Média estão há muito reduzidos a pó e a
cinzas. No entanto as aparições do Homme en Noir continuam. Os fantasmas
e as superstições conferem-lhe sempre poderes diabólicos. Aparições reais ou
reais poderes?
Ninguém o sabe. Apesar do
avanço científico, há ainda regiões do universo e da alma humana que continuam
obscuras e impenetráveis.
Uma das mais recentes aparições
remonta ao dia 20 de Fevereiro de 1968. Ela teve como testemunha e vítima
Rosinha Aguardiente, uma adolescente de 17 anos. Foi a 20 de Fevereiro quando
Rosita entrou num autocarro que logo a seu lado se sentou um homem de alta
estatura, vertido de preto. «Eu notei», disse ela, «que ele tinha uma cor
esverdeada e os olhos ligeira- mente rasgados. Sem saber porquê, senti medo,
algo sinistro emanava dele. Desci, desceu atrás de mim. Quando cheguei ao campo
senti uma enorme confusão na minha cabeça e perdi o conhecimento de repente.
Quando acordei, estava num descampado com o vestido em desalinho. Ao dar os
meus primeiros passos, tropecei numa pequena caixa que apanhei e meti no meu
saco de mão.» Rosita Aguardiente relatou o caso à polícia, que o definiu como
uma tentativa de violação.
Mas dias depois a jovem
rapariga levada pela curiosidade provocou que o assunto voltasse de novo
à baila, pois abriu a caixa que encontrara quando voltar a si naquele dia...
A caixa era toda ela hieróglifos! Assim que levantou a tampa, uma luz
como que elétrica escapou intensa. A rapariga assustou-se e apressou-se a
fechar a caixa.
O homem vestido de negro intervinha sob vários aspectos. A 20 de Julho
de 1967, o France Soir et L’, Republicain relataram os seguintes
casos:
Em Arc-Sous Ciçon, quatro criaturas vestidas de preto e com
mais ou menos um metro de altura movendo-se rapidamente, meteram-se num silvado
deixando amedrontadas algumas crianças que por ali andavam. Tinham uma cor de
pele escura, os olhos enormes e falavam entre si um dialeto
estranho e melodioso.
Os cemitérios das grandes cidades são evidentemente
locais predestinados ao vampirismo contemporâneo.
Highgate, ao norte de Londres, et le Pére Lachaise em Paris, são hoje
teatros de estranhas e fúnebres peças. Assim que cai a noite... levanta-se o
pano. As personagens aparecem pelas bermas, tornam-se príncipes das trevas no
espaço de uma noite, oficiando sobre os túmulos, evocando as divindades do
vampirismo. Já não se trata de vivos que vêm ver os seus mortos. Uns e outros,
numa curiosa comunhão, representam os seus papéis e, através de danças macabras
bem esquematizadas, o mundo dos vivos e dos mortos interpenetra-se. Surge uma
outra dimensão.
Ao nascer da aurora, os mortos recolhem às suas moradas secretas,
enquanto os vivos, extenuados e olheirentos, saem do mortuário recinto passando
perante os guardas surpreendidos e amedrontados!
Não é raro descobrir em Pere Lachaise o túmulo de um adepto do
vampirismo. É muitas vezes à volta este que se agrupam e fazem cerimônias
secretas. Citemos, por exemplo, o túmulo de Madame Berte Courrieres, aliás
Madame Chantelouve, inspiradora do escritor Huysmans e discípula do satânico
Abbé Boulan, bem conhecido dos ocultistas do século passado. A laje do seu
túmulo – não longe da de Chopin, álea Denon – está freqüentemente coberta de
cadáveres de animais, como pássaros e ratos de que se serviram para misteriosas
práticas.
As áleas do Pere-Lachaise parecem-se com as avenidas silenciosas de
uma cidade barroca, rodeada de passeios, tendo de um lado e de outro pitorescas
fachadas de monumentos funerários. Mas há sítios a que essas áleas retilíneas
não chegam; os lugares dissimulados pelas sombras dos sicomôros e das tílias
onde as sepulturas tomam um ar de antigos navios encalhados, de fundo cinzento
e fendido sob o mistério de todos aqueles arbustos. Nenhuma daquelas áleas nos
leva diretamente a tais lugares quase impenetráveis. É necessário errar ao
acaso pelos túmulos, descer, subir, escalar por vezes em vão pelo meio de toda
aquela vegetação.
O cemitério é uma cidade ciclopeana. Cada mausoléu esconde-se numa
sombra. As ruas sucedem-se às ruas, os túmulos aos túmulos, as áleas têm nomes
estranhos: caminho do dragão, álea Errazu, avenida Feuillant...
Em certos cemitérios, à noite, todo um mundo de presença... pedaços de
ossos fumegam no incenso, libertando um cheiro pavoroso. Na cripta saturada de
incenso, os partidários do vampirismo erguem os punhais e os pentáculos:
«Senhor! Tu que desejas o sangue e trazes o medo aos mortais, recebe
de novo este sangue que representa vida.» Durante vários segundos o celebrante
transpõe milênios, vive com intensidade a sombria lenda, sobre a pedra dum
túmulo, em qualquer cripta abandonada. E assim se passa até ao nascer do Sol.
«O nascer do Sol», escreve Ribadeau Dumas[25][25], «afugenta as más influências da noite.
Em certas terras, o galo representa a vigilância guerreira, ele vigia o horizonte,
e alerta também!
»Símbolo cristão como a águia e cordeiro, ele anuncia luz e
ressurreição. Drácula empalidece quando o ouve, e foge... antes que seja tarde!
A noite favorece o vampiro. Ela gera nas suas trevas o sono e a morte.»
Os sortilégios de Neaufles
Gilles de
Rais, adepto do diabo, autor de várias centenas de crimes nas caves do seu
castelo de Tiffauges não é o único a competir com a figura aterradora de
Drácula.
Na França dos primeiros séculos da era cristã desfilaram hordas
guerreiras de um príncipe cruel, que as crenças populares depressa
transformaram em vampiro.
A história de Viridomar – chefe guerreiro de uma tribo germânica –
cruza-se com a epopéia dos templários de Gisors para desembocar na misteriosa
torre Heaufles, que domina o cemitério de Nucourt. Este perímetro fúnebre
conserva ainda a marca ensangüentada de Viridomar e da sua «rainha branca» cujo
fantasma ainda paira – diz-se – pela torre de Neaufles e pelo cemitério de
Nucurt.
E partindo de esboços históricos vai crescendo a lenda, no meio de
túmulos e violências...
Um grupo de cavaleiros galopa pelo caminho escuro que vai dar a
Gisors. À frente vem um homem, cuja presença aterroriza as legiões de César
amontoadas na planície de Vaxin, perto de Nucout. «Um autêntico demônio» exclamam
os lugar-tenentes do proconsul[26][26]...Um deus Odin...»
Este personagem infernal galopa de dia e de noite ao lado de
Vercingétorix «o Grande Rei das cem batalhas». Seu nome é Virodomar, vem
diretamente da Germânia comandando uma horda de guerreiros pertencentes a causa
do chefe alvernio[27][27]. Mas Viridomar não tem o espírito
nacional dos Celtas. Ele combate por si próprio, para cumprir no dia a dia esta
«liturgia» da guerra à qual se consagrou.
As legiões romanas afirmam ter visto um «demônio sanguinário», um
«portador da morte» fazendo-se acompanhar da sua «matilha» diabólica. Têm razão
os sobreviventes do massacre quando dizem que o aliado de Vercingétorix, vive a
guerra como um ritual sangrento e permanente.
Os druidas satisfazem-se com o benzer das armas dos guerreiros celtas antes do combate.
Viridomar acha que o ritual druida não é suficiente vigoroso para se tornar
eficaz. Ele não compreende que os deuses gauleses possam proteger o homem que
não ofereça sacrifícios que envolvam sangue.
Antes do ataque, ordena que as lâminas sejam encharcadas no sangue das
vítimas oferecida aos deuses. Afirma ainda que a energia vital passa assim do
corpo mutilado para a lâmina, tornando-a «viva»...
A frente da sua cavalaria, Viridomar faz lembrar as antigas lendas
germânicas, sempre recordadas por todos com pavor, como a Caça Selvagem.
Conta-se que uma noite de Inverno um oficial romano que voltava para o
acampamento sentiu um exército que se aproximava. Julgando tratar-se de uma
carga de cavalaria gaulesa, procurou esconder-se atrás do arvoredo, mas um
«homem de enorme estatura, armado de uma moca, obrigou-o a permanecer junto
dele. Passaram então soldados de Infantaria carregados de tudo o que haviam
pilhado, seguindo-se mais carregamentos de cinqüenta caixões e por fim um grupo
de ‘gatos pingados’ aos quais o gigante se juntou; depois também desfilaram a
cavalo. Mulheres que, blasfemando, confessavam os seus crimes; um grande
exército de cavaleiros vestidos de negro, com insígnias da mesma cor, montados
em enormes cavalos, prontos a combater...»
Era um cortejo saído do nada com o
estrondo de uma tempestade... Viridomar, à frente da sua horda de cavaleiros,
voltava a fazer reviver a «caça infernal» de que todas as lendas falam!
Estamos nas planícies de Vexin. Justamente onde passaram os cavaleiros
argonautas para partirem à conquista do Toison d’or[28][28] situado pela mitologia para lá dos
Cárpatos, na Transilvânia. Os camponeses comentam que naqueles campos os
rochedos, os menires, os dólmenes, como que sonhando, voltam-se sobre si mesmos
durante o solstício de Inverno, e as pedras côncavas são habitadas pelo homem
sem cabeça, o Blaiseau l’ Ardent (homem que se foi mantendo nas velhas
histórias da antiguidade. «O homem sem cabeça aparece nos cemitérios sobre a
forma de fogo-fátuo», dizem os velhos camponeses ao serão, antes de apagar a
candeia!
No terrível séqüito do rei Viridomar destaca-se uma ágil e loira
mulher do comandante, detentora de segredos, portadora de magia.
As lendas de Vexin falam de uma «rainha branca» que aparecia perto do
cemitério de Nucourt, nas ruínas da torre de Neaufles.
No século XV, pelos mesmos sítios, uma outra «rainha branca»
tornava-se presente no espírito dos habitantes de Gisor. Para aqueles que
tentavam decifrar o mistério, tratava-se de uma mulher fantasma, imortal,
errante através dos séculos e entre escoltas de homens e mulheres vampiros.
A Rainha Branca tinha um
amante (segundo a história). Surgiu deste amor uma filha que não agüentava
a luz do dia. Mantiveram-na recolhida num subterrâneo que ligava Gisors à torre
de Neaufles, até ao dia da sua morte. O rei ao tomar conhecimento de tal
infortúnio, mandou prender o seu rival na torre do castelo de Gisors, chamada
tempo depois a «torre do prisioneiro». Ferido tempos depois ao tentar
evadir-se, acabou por morrer nos braços da sua amada que o mandou sepultar no
tão famoso subterrâneo (mandado fazer por Viridomar em tempos passados) ao pé
da filha, produto dos seus amores.
É neste local que as lendas apontam como existindo um verdadeiro
tesouro!
Tal como acontece com Drácula,
também Viridomar e a sua dama foram considerados vampiros depois das suas
mortes ocorridas nas ruínas da torre de Neaufles.
No século XV a Rainha Branca e o seu cavaleiro e amante vivem a mesma
maldição. «Conheço o chão onde dorme a Rainha Branca, pisei-o com os meus
próprios pés, escavei com as minhas mãos o negro pó, procurando nos restos da
estrela outrora iluminada a recordação de antigos esplendores!», terá dito
algures um poeta.
O amante da Rainha Branca, chamava-se Wolfang Polham, e era o homem de
confiança de Maria de Bourgonha, filha de Carlos V, e fez parte da ordem
militar Tosão de Oiro, instituída em 1429 pelo duque de Borgonha cujo fim era
restabelecer os laços desfeitos, após o aparecimento dos templários, entre o
Oriente e o Ocidente.
O caminho de Vexin era a pista deixada pelos argonautas quando
perseguiam o tosão de ouro e procuravam o «Vale dos imortais» situado na
Transilvânia, reino dos príncipes vampiros.
Wolfang Polham instituiu o Carneiro como centro místico da Ordem. O
sangrento sacrifício do animal tornou-se rito central do chamado «banquete
encarnado».
«No dia em que esta Ordem se instituiu, em Bruges, repartiram pelos
convivas um carneiro vivo cujos chifres foram pintados de dourado e todo o
resto do corpo de azul.
»Esta ordem, misteriosamente desaparecida, era constituída por vinte e
dois capítulos.
»O subterrâneo que serve de sepultura a este cavaleiro, assim como à
Rainha Branca, tem além de ligação com o castelo Gisors uma outra com o
cemitério de Nucourt.» (D. Réju.)
O tesouro de Neaufles é um acumulado de pedras preciosas e ouro, para
alguns produto de pilhagens de Viridomar. Para outros, influenciados pela
cabala simbólica, «essas riquezas são mais alegóricas que materiais». Até mesmo
o segredo do Fogo que os deuses enterraram no solo de Vexin... Vexin que foi
batizada com o nome Pagus Vulcasinus na Idade Média, e que quer dizer «o
país do fogo secreto».
Há dois séculos «um habitante de Gisors chamado Francisco teria
tentado encontrar o tesouro. Metendo-se pelo subterrâneo, ao contornar uma
parede esquinada vislumbrou um clarão encarniçado, que a cada passo dado mais
intenso se tornava e mais se assemelhava a um incêndio refletido na umidade das
paredes. Por entre um gradeamento levado ao rubro pelo infernal calor que se
sentia, ele pôde observar jóias, pérolas, montes de pedras preciosas e
diamantes, contidos em enormes cofres encarnados. Mas essas rutilantes riquezas
jaziam num permanente braseiro. Uma multidão de diabos cor de púrpura, verdes,
viscosos, armados de lanças e tridentes de um metal reluzente, eram os
carrancudos guardas destes incandescentes tesouros...», escreve Jean Jacques
Dubos em A lenda de Gisors.
De manhã, os camponeses de Neaufles deram com um corpo estendido num
silvado, perto das ruínas da Torre. Aproximaram-se. O homem apresentava uma
palidez extrema. Não tinha uma gota de sangue e apresentava ferimentos
estranhos como que provocados por garfos extremamente aquecidos, digamos que
«levados ao branco»... Um caso de vampirismo, segundo a opinião da população
local.
A poucos passos da torre de
NeaufIes surge o cemitério de Nucourt que está ligado àquela através de um
corredor subterrâneo. Os túmulos típicos de aldeia, pesados, de
alinhamento monótono, nada de secreto sugerem. O que inspira terror está noutro
sítio... justamente na falsa tranqüilidade que vos convidará a entrar.
Ao meio do cemitério, destaca-se a maciça silhueta de uma capela. Na
parte de trás surgem três túmulos diferentes dos demais, em pedra escura. Eles
guardam os restos mortais dos grandes senhores de Neaufies – que aliás já foram
referidos nas páginas de La France Secrète[29][29], «o que prova não serem
desconhecidos por todos». Outros episódios inexplicáveis se desenrolam à volta
da pequena Vexin, inundada de mistério. Por exemplo este, um tanto arrepiante e
que acontece em Nucourt.
Quem visitar o cemitério local, se se aproximar da capela aí
construída descobrirá surpreendido que existem várias sepulturas abertas e sem
caixão. Mais admirado ficará ao verificar que todas elas têm a marca de uma
cruz que faz lembrar a dos Templário...
Com efeito, as três pedras tumulares estão fendidas a meio, como se o
machado de um terrível deus tivesse agredido o granito.
Através da abertura, vislumbra-se no fundo da sepultura restos de
plumas de animais sacrificados Reza a lenda que os espectros de Viridomar e da
sua dama encarnaram na Rainha Branca e no seu cavaleiro Wolfang Polham,
freqüentando depois a torre de Neaufles e o cemitério de Nucourt.
A caça selvagem – que tanto horrorizava os viajantes da Idade Média –
rompe pelas aldeias. Ela surge à hora em que o sono desce sobre as choupanas,
tal como uma enorme pálpebra, e paralisa totalmente a natureza.
O homem imobiliza-se diante do mudo ecrã da televisão enquanto nas
quintas os cães vão despertando. Eles bem sentem que a morte acompanha sempre a
noite...
A loucura e o sangue ainda permanecem na memória dos homens.
Os vampiros de Londres
Highgate, ao norte de Londres, é um dos mais
surpreendentes cemitérios da época vitoriana, com túmulos barrocos, colombário,
pórticos egípcios, álea a perder de vista, os caixões pousados mesmo no solo
dos jazigos subterrâneos. Um cenário digno dos filmes de terror da Hammer, lá
no alto de uma das colinas Londres.
Em Highgate, as histórias de «não mortos» e de profanação de
sepulturas fazem quase parte da tradição. Um dos profanadores mais conhecidos –
amigo de Bram Stoker – é o pintor e poeta Gabriel Rossetti que (sem dúvida
profundamente marcado pela morte de sua jovem mulher) acaba por se envolver sem
o desejar em sortilégios de Highgate.
Lizzie Rossetti morreu em 1862, após uma overdose de láudano.
Foi enterrada num dos jazigos subterâneos de Highgate, mas, por mais estranho
que nos pareça, Gabriel Rossetti recusou acreditar na sua morte.
Certas pessoas pensam que Stoker o tivesse influenciado, uma vez que
este era um profundo conhecedor da vida noturna em Highgate, como veremos
adiante.
Uma noite Rossetti saltou o muro do cemitério, do lado que dá para o
lado de Swaine Lane, e arrombou o caixão da sua mulher. Como que dormindo, ali
estava havia sete anos, intacta, espantosamente conservada com o parecer
daqueles a quem ainda o sangue circula nas veias. Os louros cabelos, iluminados
pela tocha de Rossetti, ficaram luminosos a tal ponto que esse corpo parecia
ter estado a receber vida através de uma via secreta com acesso ao caixão.
Highgate, a verdadeira cidade-vampiro durante dois séculos! É esta a
opinião que hoje tem Sean Manchester, o mágico inglês sempre na pegada dos
vampiros. Manchester trabalhou durante os anos 70 para a sociedade funerária
inglesa A. E. Bragg, na Mackenzie Road. As investigações que fez, levaram-no à
seguinte conclusão: No século XVIlI foi sepultado um «vampiro» em Highgate.
Jean Claude Asfour, que também investiga sobre vampiros de Highgate,
na época em que este assunto tomou primeira página dos jornais londrinos,
diz-nos: «No século XVIII, um caixão vindo da Turquia e trazendo no seu
interior um vampiro teria sido colocado no cemitério de Highgate, desde então
tornado o centro do vampirismo na Europa.»
Presentemente, seitas satânicas tentaram já, através dos rituais
próprios, restituir à vida o «rei vampiro». Na opinião de outros, este
misterioso caixão seria aquele a que se refere Bram Stoker, no seu livro Drácula,
que desde então se tornou um romance verdadeiramente real. Contudo, no
século XVIII, a censura religiosa não permitia que se falasse impunemente de
histórias de vampiros.
Pode ler-se, no Drácula de Bram Stoker, acerca de «O horror
de Hampstead: Acabamos de ser informados que outra criança desaparecida ontem à noite só voltou a aparecer esta manhã
já um tanto tarde, numa junqueira de Shooter’s Hill, na parte mais
isolada da charneca de Hampstead. O miúdo apareceu com as mesmas feridas das
primeiras vítimas. Quando descoberto, o seu estado de fraqueza assim como a
palidez era enorme. Logo que recuperou os sentidos, explicou ter sido arrastado
pela ‘Dama de Sangue’». Bram Stoker, que afirmava ter encontrado vampyrs
personnalities em Londres, no decorrer dos anos 1880, conhecia toda esta
raça de «não mortos» como aliás fica provado através das suas descrições.
Também, e mais uma vez, não é por acaso que ele faz deslocar as
mulheres-vampiro a Hampstead, e que instala o conde Drácula em Carfax, numa
velha casa do norte de Londres, muito perto de Hampstead Hill, e coloca o
cemitério onde repousa Lucie Westenra, vítima do príncipe dos vampiros, sobre
esta mesma colina de Hampstaed. Jonathan Harker – o herói do livro – transporá
clandestinamente o muro da cidade dos mortos e trespassará o coração dos
adeptos do culto da noite.
Não existe nenhum cemitério em Hampstead. O mais próximo é em
Highgate. Por muito estranho que possa parecer, nada mudou desde o século
obscuro de Bram Stoker e das práticas mágicas de Golden Dawn.
Entre os muros do cemitério de Highgate habitará um Poder monstruoso
que terrificou Stoker e que serviu de ponto de partida para a sua narração
terrível. Desde há quase dois séculos que os habitantes da aldeia de Highgate vivem
na obsessão do «vampiro» que ronda a parte norte do cemitério, perto do portal
de Swaine Lane.
As últimas aparições ter-se-iam dado em Outubro de 1970. Várias
pessoas dignas de crédito afirmam ter visto um vulto escuro e cuja altura
andaria pelos sete pés (mais ou menos dois metros) pairando por entre túmulos.
Uma noite, certa mulher entrou precipitadamente no posto da polícia de
Highgate, com os olhos desvairados e muito perturbada.
Contou, titubeando, que se cruzara com a entidade monstruosa, descrevendo
o olhar que a fulminou através do gradeamento do cemitério: «Uma forma escura
com dois olhos que pareciam queimar.», terá ela dito.
Organizaram-se patrulhas de polícia à luz de projetores. Para a gente
da beira-rio, foi «a grande noite de Highgate». Mas o cemitério nada revelou do
seu mistério; homens e cães encontraram apenas veredas de emaranhada vegetação,
túmulos silenciosos como se fosse um cenário de uma peça trágica, esvaziado
repentinamente dos seus atores.
São muitos os testemunhos que atestam a existência de um «vampiro» em
Highgate. Continuaram a acontecer de há um século a esta parte, embora com
pequenos intervalos de silêncio, o que de certo modo ainda concede mais força
ao poder do invisível noturno.
Um outro feiticeiro inglês, David Farrant, presidente da famosa
British Psychic and Occult Societh, galgando a norte o muro do cemitério para
fazer a invocação do vampiro teve de apresentar-se ao Supremo Tribunal de
Londres. Foi algemado e condenado a cinco anos de prisão.
A invocação do vampiro
A maior percentagem de testemunhos sobre a aparição em Highgate
surgiram na imprensa inglesa:
Noites houve, quando voltava a casa pelas
entradas de Highgate, em que vi três vezes um fantasma atrás do gradeamento de
Swaine Lane. A primeira vez foi na noite de Natal, um rosto de cor parda
durante o espaço de alguns segundos. A segunda vez aconteceu uma semana
depois e foi muito rápido. Na semana passada, a aparição deu-se exatamente
atrás das grades, e foi suficientemente demorada para que eu conseguisse
observá-la claramente não vendo outra explicação que não seja de caráter
sobrenatural.
Highgate and Hampstead Express, 6 de Fevereiro de 1970
Uma noite, há mais ou menos um ano, detectamos
uma coisa estranha que parecia deslizar por entre o atalho. Ainda a
ouvimos por mais um instante, mas não voltou a aparecer. Ainda bem que havia
mais alguém comigo e que provei a mim mesma não ser produto da minha
imaginação.
Miss Andrey Connelly
H and H Express, 13 de Fevereiro de 1970
Em Julho do ano passado, ao voltar para casa
pelas 10 horas, parei de repente ao ver algo que, sem fazer barulho, se dirigia
a mim. Desatei a correr e, quando olhei para trás, já a aparição se fora...
Daniel Osborne
H and H Express, 6 de Março de 1970
Já em 1968, o Evening Standard relatava no dia 1 de Janeiro
alguns factos, pelo menos estranhos:
Túmulos violados, caixões descobertos e arrombados, cruzes partidas,
parecia ter ali havido à meia-noite uma reunião de feiticeiros, tal era a
aparência que de manhã o cemitério de Londres apresentava (Highgate). O
conservador, que acumula com o cargo de vigário, declarou-nos: «Nunca vi nada
igual. Não é vandalismo grosseiro. Tudo foi feito com imenso cuidado e segundo
algum ritual diabólico. Estou em crer que se assistiu aqui a uma cerimônia de
magia negra, o que também já não é a primeira vez.»
Um ano antes, duas alunas de liceu, com 17 anos de idade, tinham
vivido uma estranha experiência, cujo relato foi feito pelo jornalista J. C.
Asfour, que investigou o caso Highgate:
«À noite, ao voltarem para casa, Elisabeth Wojdila e a amiga bárbara
desciam pela encosta de Swaine Lane quando, chegadas à entrada norte do
cemitério (aquela que vai dar ao Colombarum), viram vários corpos erguer-se dos
túmulos. Bastante mais tarde, Elisabeth veio a ter perturbações noturnas e
pesadelos. Passados dois anos começou a ter um aspecto anêmico e dizia sentir o
gelo do seu quarto e a presença de alguém que a seguia. Contudo tinha medo e não conseguia voltar-se. Tinha crises
freqüentes de sonambulismo que a levavam até ao cemitério de Highgate.»
É neste clima de terror, mantido pelos meios de comunicação que se
desencadeou a caça ao vampiro, rapidamente levada a cabo pela polícia de
Highgate.
Uma noite, em Junho de 1974, David Farrant, a companheira e alguns
adeptos, galgaram os altos muros do cemitério a fim de invocarem o «vampiro».
A cerimônia teve lugar
no interior de um pentagrama, traçado no chão do jazigo subterrâneo, rodeado de
um círculo de proteção. Perto deste, um triângulo para receber o «astral» do
vampiro. «É neste triângulo que a entidade, em nome de ‘Asmodée’, devia
materializar-se», declarou Farrant,
mais tarde, no tribunal da polícia... «Asmodée é um dos oito príncipes invocados no ritual de Abramelin, o
mágico.»
Ergueu-se o altar na parte
norte do pentagrama: recipientes de água purificada, talismãs, punhais
do ritual, velas de cera, óleos purificadores e rolos de papel contendo
fórmulas de invocações...
Acabadas as partes preliminares, o ritual começou pelos salmodías ao
«sumo sacerdote». Pela meia-noite, deveria acontecer o essencial, isto é, a
aparição do monstro!
Estas invocações, segundo Farrant, permitem criar uma via psíquica que
possibilita a materialização. Por outro lado, evitam interferências de forças
negativas que poderiam retardar a aparição.
Às onze horas e quarenta e cinco, Farrant colheu do peito da
«sacerdotisa» algumas gotas de sangue que deitou para o cálice (onde havia água
com poderes mágicos) enquanto proferia exortações especiais. Farrant começou a
despir a sua companheira e com o sangue desenhou-lhe no corpo secretas marcas:
primeiro na boca, depois no peito e em cada um dos orifícios do corpo. No meio
do círculo traçado, estenderam-se e praticaram o ato sexual (símbolo das forças
mágicas) sem deixar de visualizar a entidade invocada para evitar assim que ele
se apoderasse dos seus corpos.
«Nós sentíamos a energia do monstro sobre os nossos corpos», explicava
Farrant, «e foi nesse instante que ele nos apareceu.»
Será o vampiro de Highgate produto de um fantasma coletivo sabiamente
mantido pelos meios de comunicação social? Se ele teve honra de primeira página
durante longo tempo nos jornais ingleses era porque respondia à doentia
necessidade desta zona obscura da alma, onde a morte e os desejos sexuais se
agitam, fervilham, como demônios e diabos nos sabbats[30][30] da Idade Média.
O medo da morte provocou sempre no homem o despertar dos seus
fantasmas e espectros, dentro de si e à sua volta, ao contrário do que acontece
numa religião, que por ser do amor, tudo dissipa e aclara. Signo astrológico do
vampirismo, o escorpião curvando-se sobre si próprio e tentando fugir da morte
acaba afinal por se entregar a ela...
No outro extremo espiritual, o escorpião sublimado torna-se águia,
desenvolvendo-se, espalhando-se, quebrando a sua angústia.
Na sua lúcida e libertadora visão, Teillard de Chardin fala-nos num
local de transparência, onde os espectros e os fantasmas se transformam e se
transfiguram, e onde o homem, escapando às seduções mórbidas, desprende as
garras e ousa enfim libertar-se de si mesmo:
«Serão salvos aqueles que tiverem a audácia de amar os outros mais que
a si próprios, transferindo de dentro para fora todo o seu ser tornando-se o
outro, isto é, atravessarão a morte para encontrar a vida... o princípio incorruptível
do Cosmos está encontrado doravante e expandir-se-á por toda a parte. O mundo
estará pleno de Absoluto.»
Este regresso ao espiritual é a resposta às obsessões do vampirismo:
transformar as forças da morte em luz, como nas práticas de alquimia quando a
matéria maciça e negra se purifica e se transforma em ouro.
«Protegei-nos do mal»
Nos séculos XVI e XVII apareciam nas histórias de vampiros os
caçadores de prêmios, que prestavam juramento sobre a Bíblia e localizavam o
túmulo do monstro, no cemitério da aldeia, a soldo de moedas de ouro ou de
prata. Bastava que uma epidemia devastasse a região e logo se contavam pelos
dedos os casos de túmulos suspeitos. Mas os tempos mudaram, e desde o século
passado que os caçadores de vampiros procedem liturgicamente, ao combater o que
eles chamam «as possessões nefastas».
Invocam outras divindades, utilizam fumigações, estranhos e mágicos
exorcismos. Não se trata de padres
mandados pela igreja, mas sim de médiuns, de feiticeiros um tanto bizarros que
acreditam nos mortos-vivos e afirmam conhecer as técnicas de «desfazer o
feitiço» e de destruir o «vampiro». Os praticantes, destes cultos dividem em
três os gêneros de feitiços: O feitiço do ódio (ou da morte), o feitiço do
amor, e o auto enfeitiçamento.
«Nós», afirmam eles,
«servimo-nos do primeiro para combater o vampirismo.»
O ritual processa-se à maneira
das cerimônias mágicas antigas, apoiando-se em textos manuscritos, alguns dos
quais podemos encontrar nos Arquivos da Biblioteca do Arsenal, em Paris, ou no
Museu Britânico de Londres. Altar forrado a branco (por oposição à cor preta),
uma longa agulha metálica, uma espada com caracteres (de proteção) gravados, um
turíbulo, duas estatuetas de cera envolvidas em seda, representando
respectivamente uma mulher e um homem.
«As estatuetas são envoltas em
seda que serve para isolar», explica o celebrante...
Elas representam o vampiro
fêmea e macho que será preciso destruir.
Um grande círculo traçado no
solo como que enclausura as estatuetas. Atuando sobre as duas estatuetas,
destruindo-as pelo fogo, destrói-se o duplo astral do vampiro, que acabará por
ser destruído também.
À volta do círculo, os
oficiantes escreveram os nomes de divindades protetoras, fazendo uma espécie de
muralha intransponível: Adonay, Iah, Elohim.
O sumo-sacerdote asperge o
centro do círculo com água benta e pronuncia:
«Senhor, através do poder
atribuído ao carneiro, dá poder a este círculo, e que ele se torne armadilha
mortal, de forma a que todos quantos utilizam os objetos do mal sejam para
sempre destruídos. Em nome d’ Adonay, de Iah, Shadaie Elohim, em nome das
energias cósmicas, solares, astrais e terrestres faz que o nosso inimigo
presente neste círculo não possa sobreviver ao meu ato de morte para além de
uma Lua.»
Uma vez pronunciadas estas palavras, o celebrante baixa a mão e
pegando na longa agulha espeta-a numa e noutra estatueta, como se estivesse a
perfurar um coração que ainda pulsasse. Seguidamente desenhou, com um pedaço de
carvão, um círculo à volta dos assistentes, espalhando punhados de pregos de
ferro.
Na tradição da Europa central, aqueles que traziam consigo pregos de
ferro e um pedaço de carvão consideravam-se eficazmente protegidos contra o
vampirismo.
No século XIX, Stanislas de Guaita, o Sâr Péladan e o escritor Joris
Karl Huysmans, celebravam rituais idênticos a estes e contra os espíritos a
quem chamavam «demoníacos».
Muitas vezes estes vampiros fêmeas e vampiros machos não surgiam senão
das angústias e dos cérebros febris dos participantes, e então o celebrante acabava
por se envolver numa situação infernal que ele próprio tecera.
Alguns conseguem livrar-se dessa situação através de delírios
cosmogônicos, para explicar as origens cósmicas do vampirismo, e mostrar que o
mal vem de uma outra região do espaço: «Em tempos idos, um planeta situado
entre Marte e Júpiter explodiu!... Esse planeta tinha o nome de ‘Lúcifer’. Os
habitantes atingiram a Terra, trazendo consigo todo o tormento do abismo. Estes
extraterrestres foram os ‘anjos destronados’, os exilados do planeta ‘Lúcifer’.
Colonizaram a Terra, e iniciaram os homens na magia negra, instaurando o crime
e a loucura como regras da existência. Foram eles os primeiros vampiros.»
Estas explicações esquizofrênicas nunca atenuaram os terrores e as
angústias do mundo da magia. Quando muito – como com muitas teorias fantásticas
– reforçam a convicção de que existem seres malfazejos vindos de algures e
detentores de sabedoria diabólica. E permanecemos nisto...
Esta fantasmagoria não se trata de uma fantasia com cenário de castelo
em ruínas, próprio das grandes obras de romantismo trágico. Perigosa para o ser
humano (facilmente sugestionável) ela chega mesmo a ir desenvolver forças que
este já não controlará, acabando por lançá-lo num autêntico caos mental.
Os mágicos da Idade Média chamavam a este fenômeno de autodestruição,
um «enfeitiçamento».
O licor da
imortalidade
Nas neves do
Tibete e de Bouthan, nas cavernas do monte Kallasha – onde ainda hoje vivem
devotos do deus Shiva – velhos monges-férus da magia negra preparam uma
original bebida a que chamam «licor da imortalidade».[31][31] Estes ascetas fazem horríveis
experiências para se tomarem imortais. Eles não vivem à luz, nem no esplendor
dos ascetas da Índia; basta vê-los nas aldeias de Cachemira ou em Bouthan.
As caras deles, são autênticas máscaras da morte, «olhos flamejantes»,
e as vozes são cavernosas, como -que vindas do fundo de um terrífico abismo
(dizem-no os guias da montanha). As portas fecham-se à sua passagem. Certos
turistas vindos de Kallasha comentam as suas monstruosas técnicas de atuação.
Dizem que em algumas grutas se encontra a cave dos rituais, onde
sobressai a meio uma mesa de pedra retangular. O tampo da mesa está cheio de
vários e largos orifícios. Para alguns esotéricos, esta mesa mágica é dedicada
ao deus da montanha mas não servirá somente para honrar os demônios
subterrâneos. Ela é também uma mesa de oferendas e transformação.
Todas as descrições feitas pelos que voltavam das cavernas do
Himalaias permitem imaginar a cena: o sumo-sacerdote Bom[32][32], assim que entra na cave mágica,
deixa cair as suas roupas e aparece nu, esquelético. Pega numa colher de forma
redonda mas com um cabo muito comprido e mergulha-a num dos tais buracos
existentes no tampo. Extrai de lá algo com que esfrega várias partes do corpo,
friccionando-se e recitando salmos ao deus dos mortos.
«Esta é a verdadeira bebida da imortalidade», diz ele. «A vitalidade
dos homens novos e robustos está dissolvida aqui. Ela seria mortal caso não se
tratasse de um iniciado, para o qual se tornará uma fonte de inesgotável
energia. Desta forma, o mais graduado suplantará os deuses...»
O feiticeiro leva a colher à boca e engole o líquido. Em certas
aldeias do Himalaia conta-se que a mesa é oca. No interior, os Bons colocam
homens que eles escolhem para o sacrifício, que, deixando-se morrer de fome
começam lentamente a decompor-se. Os cadáveres nunca são removidos dali. De vez
em quando, um monge junta àqueles um homem vivo. O líquido resultante das
carnes putrefatas será a bebida da imortalidade, o suco da morte, por assim
dizer, pois que alguns monges morrem envenenados. Encontram-se os corpos deles
ao fundo das grutas, e a superstição local considera-os vampiros, «não mortos»,
rakshasas.
Os rakshasas são os vampiros da magia indiana. São cruéis e
ferozes. Acusam-nos de tudo devorar, queimar e ferver.» Os longos caninos fazem
lembrar vampiros...»[33][33]
A sete mil metros de altitude eleva-se o monte Kallasha onde o gelo
forma como que uma cúpula que protege cavernas e templos subterrâneos, onde os
eremitas se entregam ao culto dos mortos. Estes adeptos das trevas vêm errar
pela noite, à volta do lago Râkshastal, o «lago das forças hostis».
Espalham cinzas por todo o corpo, descoloram os cabelos com cal e vão
rezar para os locais de cremação. A maior parte, depois de ter bebido o «licor
da imortalidade», não teme o envenenamento. Eles estão ali a cumprir um rito
mais velho que a própria humanidade, dedicado ao deus Shiva sob a forma de
Rudra, o Uivador.
«A partir da ocasião em que os deuses e titãs[34][34] criaram o mundo, pela agitação do oceano
cósmico saiu o néctar, mas também o veneno. O veneno ficou bloqueado na
garganta do deus, que se tornou azul. Por esta razão, chamam a Shiva o deus do
pescoço azul ‘Nilakanta’.»
Shiva é Nishichâra – o errante noturno – porque tem a cabeça cortada e
pendura no pescoço colares de caveiras. Aqueles que professam estes cultos
utilizam cinzas das fogueiras funerárias para construir, para fabricar «um novo
corpo», um corpo que seja incorruptível, e entrarem assim vivos no reino
dos «não mortos».
Shiva, sob o seu aspecto terrífico (Bhaivara) de uivador (Rudra),
dá indicações quanto ao estado do Universo no seu movimento e
transformação. Os praticantes da magia negra fizeram dele o deus dos mortos e
dos cultos do mal. O homem julga e mede segundo as suas crenças pessoais, os
seus medos e o seu tipo de consciência. Justifica as práticas diabólicas a
partir de textos sagrados, tal como o de Bhâgavata-Purâna, no qual se diz:
Como um demente, Shiva erra pelos horríveis cemitérios rodeados de
fantasmas e espíritos malignos. Nu, com os cabelos em desordem, ri, Chora,
cobre-se de cinzas e usa como ínuco ornamento um colar de caveiras de ossadas
humanas. Pretende ser um bom agouro, mas é um mau agouro! Louco e adorado
por loucos, reina entre os espíritos que habitam as trevas. Que este dito
soberano, o último dos deuses, não possa jamais nem uma parte das
oferendas advindas dos sacrifícios.
(IV. Capítulos 2 e 7)
Os desvios mágicos da Índia fizeram do «Senhor do Yoga» um mestre dos
vampiros e dos «não mortos», sem compreender que a morte – no Shivaísmo – não
existe. «Morre-se um milhar de vezes por dia», dizem os ascetas. Este rápido
movimento mata e ressuscita, destrói e salva o universo. Rudra o uivador amedronta
o homem que tem medo de morrer. No além, ele reina e resplandece em todos os
mundos visíveis e invisíveis. «Ele é a Porta de Ouro dos santos mistérios»,
revelam os seus devotos.
O medalhão-vampiro
de Montague Summers
A crença dos vampiros é construída à custa do medo. O vampiro vive na
angústia da estaca que poderá a trespassar-lhe o coração. Teme o nascer do dia
e as orações do exorcista, que podem reduzi-lo a cinzas e pôr termo à sua
existência de «não morto».
Os aldeões temem o vampiro; munem-se de pentágonos e recitam fórmulas
de proteção. O terror é a pedra angular do vampirismo. Sem ela, o edifício
ruiria e com ele os seus cortejos de monstros e de superstições. Toda a
história do vampirismo é um entrelaçado de orações, súplicas, enfeitiçamentos a
contra-enfeitiçamentos, maldições. Um combate o outro, que por sua vez combate
o outro, e o mundo dos homens e dos espíritos situa-se numa região crepuscular
onde as leis do medo dominam.
O reverendo Auguste Montague Summers nasceu em 1880, época essa em que
Bram Stoker referia ter encontrado em Londres vampyrs personnalities. Teria
estudado no Trinity College onde se apaixonará pela literatura gótica antes de
escrever sobre o vampirismo[35][35]. A sua paixão pelo vampirismo ocasionou
várias descobertas, das quais a mais espantosa foi, sem contestação, um
misterioso talismã com a efígie do príncipe Vlad Drakul. Trata-se de uma
medalha circular onde caracteres romanos, misturados certamente com dialetos
eslavos, estão gravados. Ao centro da medalha pode ver-se a cara de um homem,
que lembra o famoso retrato de Drácula existente no castelo de Bran.
Para Montague Summers, que passou a vida a estudar os hábitos dos
vampiros, este medalhão, escondido, é uma arma de proteção para o vampyr
hunter (caçador de vampiro).
O papel protetor dos medalhões em ferro, espadas, punhais, é muito
antigo, mas todos estes objetos mágicos podem servir o vampiro ou aquele que
procura destruí-lo...! Tudo depende, explica Montague Summers, da natureza do
metal assim como dos caracteres gravados:
«Um vampiro gravado num fragmento de pedra, heliotrópico,
transforma-se em pedra de sangue. Ela dará àquele que a trouxer consigo,
segundo os ritos próprios, o poder de dominar demônios, íncubos e súcubos[36][36]. Estará sempre presente nas suas conjuras
e evocações.»
Outros livros mágicos de necromancia chamavam a esta «pedra do
vampiro» a «pedra da Babilônia». Conta-se que, esfregando-a no suco do
«girassol» ou «héliotropo», essa pedra teria o poder de escurecer o Sol, como
num eclipse, e fazê-lo também ficar da cor do sangue.
«Bastava fazê-la ferver em cacho dentro de uma caldeira cheia de água
mágica. O vapor, adicionado às palavras e caracteres do mundo da magia
adensavam suficientemente o ar para velar o Sol e fazê-lo ficar da cor do
sangue. Podia-se então distinguir os espectros, manes e vampiros!» (Robert
Ambelain. O vampirismo)
Usar um objeto protetor, era costume nas boas famílias da Europa
central, que levavam para a sepultura um anel de prata[37][37] com uma pedra-de-sangue cravada, ou
qualquer outro talismã dotado de propriedades misteriosas: para proteger o seu
«duplo» nas saídas do túmulo ocorridas durante a noite (como aconteceu com a
família Drácula, Cillei, Garai, e também com o imperador Segismundo da
Hungria).
Temiam, evidentemente, o aparecimento de caçadores de vampiros. A
estaca aguçada e o fogo que podia destruir em poucos segundos o corpo do «não
morto».
Protegido assim, o vampiro considerava-se rei da noite, agindo segundo
a sua vontade apesar do suceder dos séculos e da evolução material operada no
mundo. Diz-se que teria a perpetuidade inacessível ao comum dos mortais, salvo
se o homem que o desconhece penetra na zona sagrada do vampiro um pouco como
acontece ao inseto que choca, mesmo sem querer, com uma teia de aranha. Uma
pequena e subtil vibração basta para que toda essa teia seja sacudida. Ao
centro, a aranha encontra-se adormecida mas recebe o aviso da onda de choque...
Em poucos instantes ela atinge a parte mais larga da sua teia. A sua
lei é inexorável. E a morte, a morte para o imprudente que foi apanhado dentro
do perímetro mágico.
Esta crença explica os curiosos acidentes que tiveram lugar na
expedição às ruínas do castelo de Drácula, em Curtea de Arges.
Em 1969, dois cineastas americanos atraídos pela atmosfera sulfurosa
das ruínas tentaram filmar as pedras que restavam do Ninho da Águia. Um deles,
desequilibrando-se partiu uma anca, seguindo para o hospital de Ambras. O
segundo magoou-se passado um mês sobre a expedição. E óbvio que o filme não se
pôde realizar.
Proteção oculta do castelo ou muito simplesmente uma coincidência? Os
camponeses de Arefu, que vivem muito perto das ruínas, referem-se muitas vezes
ao castelo maldito, mas hesitam ir até lá pela razão – dizem – de que Bram
Stoker assombra com freqüência esses locais.
A mais antiga das crenças do vampirismo – aquela que horroriza ainda
os velhos da Transilvânia – passa-se no mundo dos que, adormecidos, sofrem
obsessão, imagens fixas que se tornam presentes nos seus sonhos. O mistério do
sonho permanece para lá do espaço e do tempo nesta zona intermédia que nos
escapa apesar da evolução do mundo moderno, dos séculos de civilização, das
abordagens da psicanálise. Os feiticeiros da Sibéria diziam que o sonho era o
meio de que os mortos se serviam para comunicar com os vivos.
As palavras de Abremelin o Mágico
Este
manuscrito – disponível na biblioteca do Arsenal de Paris é um documento
essencial para aqueles que desejem compreender a doutrina e a prática do
vampirismo, às quais se dedicavam algumas das grandes famílias da Europa
central.
Segismundo, imperador da Hungria, utilizou as revelações de Abremelin,
o mágico para tentar roubar à morte bárbara Cillei. Ele fundou a Ordem do
Dragão usufruindo para tal dos conselhos do seu mágico, Eleazar, a quem
Abremelin teria confiado os seus segredos. Drácula tornou-se ponta de lança
dessa Ordem misteriosa, seguido por outros príncipes romenos como Hermann de
Cillei, Minéa Garaï, Erzsébet Bathory que se isolaram nos seus ninhos de águia
para perpetuar obscuras alianças com os poderes da noite.
Apresentamos ao leitor uma página inédita do manuscrito de Abremelin o
Mágico, um dos textos importantes escritos por Aléazar – este manuscrito pode
também ser visto na Biblioteca Marciana de Veneza.
No dia seguinte apresentei-me a Abremelin, que sorrindo me disse:
«quero-te sempre assim...» e conduziu-me ao seu apartamento privado onde copiei
dois manuscritos. Ele então perguntou-me se na verdade e sem receios eu
desejava aprender a Ciência Divina e a Magia Negra. Respondi-lhe que, se
empreendera tão longa e fatigante viagem, o motivo fora o de
querer saber toda a verdade.
«E eu», disse Abremelin, «forneço-te esta Ciência Sagrada,
permitindo que a pratiques respeitando as leis destes dois pequenos livros, sem
omitir a mais pequena coisa, por mais inconcebíveis que elas possam parecer-te.
Servir-te-ás desta Sagrada Ciência para reencontrar os antigos poderes,
e voltar a ser um deus imortal, vencedor da vida e da morte.
»Então as trevas não te vencerão porque tu serás o vencedor,
e hás de entrar na cadeia das trevas que habitam a Eternidade. Não
ofereças esta ciência senão àqueles cujo olhar pode desafiar a obscuridade sem
tremer aqueles cujo coração é tão forte que suportam a força do infinito
sem que sobre o fardo se dobrem. Mas quero que saibas que esta
verdadeira Ciência não durará em ti nem na tua geração para além de setenta e
dois anos e tão pouco se manterá na nossa seita. Outras virão e,
retomando o facho, hão de levá-lo cada vez mais longe, através do
mundo, em nome do Supremo Senhor detentor da Pedra Sagrada. Que nunca a
curiosidade te arraste a saberes os porquês de tudo isto, a não ser que o
teu coração seja suficientemente forte para receber a vida infinita nos seus
vastíssimos limites. Imagina tu que a nossa maldade fez da nossa seita uma
seita insuportável, não só a todo o ser humano como também aos
deuses venerados pelos homens.»
Fiz menção de me ajoelhar ao
receber os livros mas,
repreendendo-me, Abremelin avisou-me de que apenas perante o Senhor
deveria fazê-lo. «Estes dois livros estão escrupulosamente escritos, e depois
da minha morte poderás lê-los, meu querido Lamech.» Instruído por Abremelin,
despedi-me dele e parti pelo caminho de Constantinopla depois de receber
a sua bênção. Em Constantinopla surgiu-me uma estranha doença que me esgotou.
Foi como se num sonho a alma saísse e fosse substituída
por uma luz forte. Retomando as minhas forças, espantado com a minha
transformação, com a vitalidade de um jovem e o saber de Abremelin,
tomei um barco e parti para Veneza.
Cheguei a esta cidade onde amigos meus me receberam... e foi
nesta mesma cidade que invoquei os quatro espíritos superiores, que me
entregaram um espírito familiar, a chave e o número que permite prodígios!
Seguidamente na Hungria dei ao imperador Segismundo, príncipe muito
clemente, um espírito também familiar da segunda hierarquia satisfazendo assim
um seu anterior pedido.
Ele queria dominar toda esta operação, mas foi prevenido de que
essa não era a vontade do Senhor, pelo que teve de contentar-se que tudo
acontecesse como se se tratasse de uma pessoa simples, e não de um
imperador.
Esse espírito facilitou o casamento com uma mulher linda. E
foi ainda o mesmo que ajudou a encontrar bárbara de Cillei, ainda mais
bonita que a primeira. Mas bárbara de Cillei morreu e foi enterrada no
castelo de Vazradin. Confidenciei ao meu imperador que a morte não existe para
aquele que possui a Ciência Sagrada de Abremelin. Pediu-me então o imperador
para que lhe ressuscitasse a bela e maravilhosa jovem. Assim o fiz,
invocando de novo os quatro espíritos já invocados em Veneza, em circunstâncias
diferentes e segundo a Ciência Mágica de Abremelin.
Informei o imperador sobre o perfume que deveria
fazer parte da cerimônia do despertar do cadáver: uma porção de incenso, uma
meia parte de Stoelas do Levante, e uma quarta parte de madeira do
bosque de Aloés.
Estes produtos, reduzidos a pó, deveriam ferver numa caçoleta,
perto do cadáver. Expliquei em seguida ao imperador que seria necessário
invocar os quatro espíritos do décimo terceiro quadrado mágico: Oriens, Paymon,
Ariton, Amaymon, porque só eles poderiam conseguir o regresso do morto à
vida, tirando-o das trevas que acorrentam corpo e espírito.
No fim do manuscrito de Abremelin, o mágico Eléazar
conclui:
A sagrada magia que Deus deu a Moisés, Aarão, David, Salomão e
a outros profetas ensina a verdadeira sapiência divina, deixada por Abraão a
seu filho Lamech, traduzido do hebraico em Veneza no ano de 1458.
É estranho que se
veja este texto tomar as suas raízes na Bíblia, uma vez que servia de manual
prático aos adeptos do vampirismo da Europa central. Uma vez mais o culto do
vampiro aparece como uma blasfêmia organizada e uma magia anti-Deus,
reclamando-se o poder dos profetas com fins puramente materiais.
Este desvio da força espiritual é obsessivo em todos os praticantes de
magia negra, que vêem Jesus Cristo como um mágico, capaz de ressuscitar Lázaro,
de multiplicar os pães, as riquezas, e de ultrapassar a morte num corpo que
fica incorruptível.
Este desafio não pode trazer senão ódio, a desagregação e finalmente
um vazio de alma como diz Simeão, o grande místico ortodoxo, nos Capítulos
Teológicos.
Cada vez que a inteligência é arrastada pela
presunção mergulhando nela, e quando imagino que o que é a si o deve,
logo a graça que invisivelmente irradia a alma parte deixando-a
vazia.
(Centúria capo 75)
QUINTA PARTE
Os santos e os condenados
Em numerosos casos de vampirismo, a abertura do túmulo revela um
cadáver em perfeito estado de conservação «pele fina e flexível, corpo sem
alteração».
Este prodígio do após morte não é uma vaga superstição dominada pelo
medo aos vampiros. Um corpo enterrado desde há séculos não é mais que um magma
informe de pó de terra e de ossos. É a lei da decomposição do corpo do mortal.
Uma das grandes leis da natureza: Todas as coisas perecem, voltam à terra,
tornando-se pó e cinzas. No entanto, em certos casos o corpo aparece
intacto ou quase. Os cientistas explicam este fenômeno como sendo causado pela
composição do terreno onde está enterrado o cadáver, as variações de
temperatura do sub solo, a ausência de insetos ou de roedores que provocam uma
proteção natural, impedindo o seu apodrecimento. Simples hipóteses científicas
quando se conhecem outros fenômenos que acontecem na incorruptibilidade de
certos cadáveres: um perfume agradável do corpo, suor de sangue, humores do
cadáver, luminosidades na parte superior da sepultura, como aconteceu quando
Charbel morreu, com a idade de 78 anos, no seu eremitério do Líbano.
Tanto milagre que a natureza química do terreno não pôde explicar! Há
toda uma lógica que não pertence a este mundo.
Os santos e santas do cristianismo apresentam muitas vezes um bom
estado de conservação quando passaram séculos sobre o dia da sua inumação. Uma
vez mais, os não mortos, os nosferatu do vampirismo passam por cima dos
milagres do mundo cristão. Os cultos demoníacos imitaram sempre a magia e os
prodígios da religião, como por exemplo na missa negra que não é senão uma
inversão da missa cristã, um derrubar da liturgia, das orações do culto.
O não morto, intacto no seu túmulo, aparece pois nas superstições como
uma espécie de Santo diabólico que, também ele, apresenta os mesmos sintomas de
imortalidade, incorruptibilidade, suor de sangue umedecendo todo o corpo,
fenômenos luminosos à volta do túmulo.
Mais que por pura imitação, eles, os adeptos do vampirismo foram mais
longe e para dar forma aos seus não mortos e sugadores de sangue ter-se-iam
servido mesmo dos milagres do mundo cristão.
Para as pessoas ingênuas, os casos de incorruptibilidade não serão
exclusivos dos santos, pois que também os adeptos do diabo podem ser alvo de
tal milagre, uma vez que Deus não existe sem a ameaça dos infernos que tantas
vezes os padres focam e a que chamam «condenação eterna».
Também a religião tem o seu inferno, os seus demônios, os seus padres
malditos. Basta que aconteça uma maldição e logo das entranhas da Terra se
libertarão espíritos malignos cujas forças em muito ultrapassarão as dos
homens. Apareciam assim os vampiros tão reais quanto os santos do paraíso...
Em cada família havia lugar para Deus na Igreja da aldeia, e um outro
para o demônio por entre os túmulos do velho cemitério. O Bem e o Mal nunca
deixaram de partilhar a alma humana, como a luz e as trevas, o excelente e o
vil, o amor e o ódio. O vampirismo nasceu desta oposição.
Terá sido preciso a existência de grandes ascetas do deserto, e
figuras espirituais como S. João da Cruz ou Simeão o novo teólogo, para
entender que a humildade em Deus salva-nos e Deus é um Deus de Luz, que enche o
universo, destrói a morte e o seu cortejo de demônios e não deixa lugar à
obscuridade.
O medo fixa-se sempre no espírito do homem, e raros são os que fizeram
esta experiência estática da luz. O medo, quando anoitece, tranca as portas.
Ele força que se recitem salmos, pedindo auxílio. O coração contraído não deixa
entrar a luz e o medo cria então as suas obsessões, os seus fantasmas.
Corpos incorruptíveis
Imediatamente
após a morte de S. Francisco Xavier, a 2 de Dezembro de 1552, meteram o seu
corpo num caixão cheio de cal viva para que, o mais rapidamente possível, a sua
carne fosse consumida e se pudesse assim levar os seus ossos para Goa.
A 17 de Fevereiro de 1553, as autoridades religiosas indianas abriram
o caixão com a convicção de aí encontrarem tão somente os restos do Santo. Mas
eis que ao retirar a cal que lhe cobria o rosto, este apresentava o aspecto
rosado, tendo a frescura de alguém apenas adormecido. O corpo estava
completamente intacto, sem qualquer sinal de decomposição.
Para confirmação do estado em que se encontrava o cadáver, foi-lhe
retirado um pequeno pedaço de carne acima do joelho, começando imediatamente
a sangrar. Transportado por mar, foi enterrado em Malaca, a 22 de Março de
1553.
Mas o miraculoso fenômeno não ficou por aqui e, como que causado por
uma força misteriosa, alguns meses depois mantinha o mesmo estado da
incorruptibilidade. Transportado para Goa, foi sepultado na igreja de S. Paulo.
Em 1612, quando se lhe amputou um dos braços para ser enviado para Roma, o sangue
correu vermelho e fluido!
Nos Evangelhos, assim como no Antigo Testamento, o sangue é portador
do espírito de Deus. No jardim das Oliveiras, na Noite Divina, Jesus suou
sangue como se o Espírito sangrasse e sofresse.
Durante a ceia que precede a
hora em que se entregaria, Ele tomou o cálice e dando graças o abençoou e deu aos seus discípulos dizendo: «Tomai e
bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança...»
Na cruz, sangue e água escorreram do lado que fora trespassado pela
lança do centurião. E a terra foi inundada pelo seu Espírito.
O caso dos corpos incorruptíveis de santos evoca a presença misteriosa
do Espírito sob a forma de suor de sangue jamais coagulado, sempre fluido
dentro e fora do corpo. Ele umedece o cadáver, transfigura-o, ilumina-o,
conserva-o intacto. Vários fenômenos inexplicáveis envolvem muitas vezes o
milagre: aparecimento de luz à volta do túmulo, exalações perfumadas, curas de
doentes. O cadáver de um santo resplandece, vibra, envia moléculas de luz. Ele cria
como que uma zona sagrada onde, tudo pode acontecer.
Em 1582, Santa Teresa d’ Ávila morre na sua cela do convento de Alba
de Tormes. O rosto de Santa Teresa de Jesus, segundo afirmou a duquesa d’Alba,
ficou após a morte lindo e resplandecente, dir-se-ia como Sol brilhando. Metido
num caixão cheio de cal e tijolos, foi o corpo transportado ao cemitério. Mas
no dia seguinte à sua morte, do túmulo de Santa Teresa de Jesus emanava um
perfume de tal forma intenso e delicioso que os monges teriam tido a sensação
de estarem de novo na presença da sua Madre.
Abriu-se o túmulo a 4 de Julho de 1583. A tampa do caixão estava
partida, meia apodrecida e cheia de bolor. Era forte o cheiro a bafio e as
vestes encontravam-se putrefatas. O santo corpo, também ele, tinha bolor, mas
mantinha a frescura como se tivesse sido enterrado na véspera.
As monjas despiram-na quase totalmente, para a vestirem de novo.
Segundo afirmaram, um maravilhoso odor se espalhou pelo convento.
Em Novembro de 1585, três anos passados sobre a sua morte, os médicos
de A vila examinaram o corpo, tendo chegado à conclusão de que apenas um
milagre, e não uma causa natural, teria permitido que um corpo fechado três
anos (sem estar embalsamado) se mantivesse intacto, continuando a exalar o
mesmo perfume de sempre.
Fenômenos luminosos
O sangue do cadáver dos santos,
passados anos sobre a sua exumação, deverá ser considerado de natureza humana
ou sobrenatural?
Os bioquímicos que o analisaram em laboratórios atestam tratar-se de
sangue humano, mas esbarram com fato incompreensível: como é que o sangue se
mantém, se renova, não coagula?
Esta pergunta atordoa e fica sem resposta. Em certos casos
desencadeiam-se sentimentos descontrolados, noutros, porém, é a resposta
embebida em amor e em certeza. Inquietação, para outros tantos...
Não há provas irrefutáveis, apenas fenômenos inexplicáveis como que a
interpor um véu entre o homem e a natureza secreta do milagre.
Por exemplo, o caso de manifestações luminosas: J. Moschus, depois de
ter feito um inquérito entre monges do Oriente[38][38], testemunha:
«Há sete anos vimos à noite, no cume da montanha, luz que parecia um
incêndio. Pensamos que fosse para afugentar certos animais, mas durou tantos
dias que acabamos por subir até lá. Não encontramos o mais pequeno sinal, nem
algum ponto de luz ou algo queimado na floresta.
» Na noite seguinte, voltamos a ver a mesma claridade, repetindo-se
durante todo um trimestre. Decidimo-nos
então fazer-nos acompanhar de alguns companheiros e, munidos de armas,
voltamos a subir a montanha na direção da tal claridade. Ficamos até de manhã.
Vimos então aí uma pequena gruta onde logo entramos, deparando com um anacoreta
morto. Vestia um casaco feito de corda e segurava um crucifixo de prata. Perto
dele uma folha onde se escrevera: Eu, pobre Jean, morri na quinta indicação.
Fizemos então o cálculo e chegamos à conclusão de que teria morrido
havia sete anos. Pois o seu estado de conservação era como se tivesse
morrido no dia em que o descobrimos!
Voltamos a encontrar estes fenômenos de luzes noturnas nos pormenores
miraculosos que envolveram a morte do padre Charbel Makhlouf, eremita maronita[39][39], que morreu a 24 de Dezembro de 1898 no
Líbano.
Por exemplo: na noite seguinte a ser sepultado e nas quarenta e cinco
que se seguiram apareceram sempre sinais luminosos à volta do seu túmulo.
Também o irmão George Emmanuel Abi-Sassine testemunhará junto das
autoridades religiosas, no dia 14 de Julho de 1926: «Nós podíamos ver diante de
nós a pouca distância, para Sul, uma luz brilhante sobre o túmulo, mas uma luz
no gênero da luz elétrica apagando e acendendo. Manteve-se tanto tempo assim
que foi possível observá-la bem. A cúpula do mosteiro, e todo o lado oposto ao
túmulo, a Oriente, pareciam iluminados pela claridade do dia. Dirigimo-nos ao mosteiro
e contamos aos monges o que se passara, sentindo porém que a nossa história não
lhes merecia qualquer credibilidade. Voltamos a ver o mesmo espetáculo
maravilhoso sempre que em noites de vigília passávamos junto do túmulo, assim
como o observaram todos aqueles que nos acompanhavam.»
A 15 de Abril de 1899 abriu-se o túmulo na presença das autoridades
eclesiásticas e de dez testemunhas civis. Todos disseram que devido às chuvas o
túmulo do irmão Charbel era um imenso lamaçal.
O corpo flutuava na lama, e sob a água que do alto caía em abundância.
Apesar de tudo continuava flexível, sem rigidez de membros. De mãos postas
sobre o peito segurava um crucifixo. No rosto e nas mãos havia sinais de bolor,
que Saba Moussa retirou, reaparecendo aos nossos olhos como que um homem apenas
adormecido... sangue encarnado vivo misturado com água escorreu do seu lado...
«O corpo flexível, transpirando sangue, nenhum sinal de corrupção,
como que acabado de ser enterrado nesse momento.» (Testemunho do irmão Elie
Abi-Ramia.)
Passado um ano sobre a sua morte, declara o professor Teófilo Maroun:
«um curandeiro tirou-lhe as vísceras a fim de pôr termo àquela transpiração
aquo-sangüínea. Mas foi em vão...»
Em 1900 o corpo do irmão Charbel foi exposto ao Sol durante seis meses
no terraço da Igreja esperando-se que secasse. Em vão, novamente, pois que nos
sete anos a seguir o cadáver manteve a mesma transpiração.
Sessenta e quatro anos depois da sua morte, isto é, a 7 de Agosto de:
1952, o corpo foi de novo exposto. O irmão Daher escreverá: Vi com os meus
próprios olhos esse corpo intacto, umedecido, ele e as vestes
sacerdotais, assim como o próprio caixão...
Os corpos incorruptíveis revelam os mistérios do sangue após a morte e
a conservação completa do corpo. Poderemos evocar a força fantástica que retém
os átomos do cadáver, evita a sua desagregação e o seu regresso ao pó.
Esta força cria uma nascente de sangue, cura os doentes, ilumina o
túmulo. E como se o sangue sofresse uma transformação química que o
transformasse em luz.
Para os místicos, esta força rodopia, sondando o coração do homem. A
sua presença é universal.
Tu não tens onde te esconder,
tu, cuja glória tudo invade...
Salmos de David
É o
espírito que fala e se exprime e se comunica ao mundo.
Não teria assim o vampirismo
sido senão uma fantasmagoria, uma tendência obsessiva, uma doença da alma que
derrubaria a imagem de Deus, procurando apropriar-se do Seu poder.
A luz tornada obscuridade, as orações blasfêmias e o corpo
ressuscitado, um fantasma errando fora do túmulo na busca do sangue que contém
a vida.
Um monstruoso zombar da força espiritual que liberta o homem dos
impulsos de ódio e de amor, levados até à obsessão que envenena.
Cronologia dos casos
De vampirismo
Segundo
os processos verbais,
Desde
a origem até os nossos dias.
Não é possível fazer-se um levantamento
completo de todos os casos de vampirismo ou presumíveis como tal, mas podemos
elaborar uma lista das principais manifestações que originam o processo verbal
ou crônica de época.
Snornik, em Engic: Ao morrer, a mulher de um padre ortodoxo russo
confessou-se vampiro.
Morávia,
perto de Olmütz, em Liebava: O vampiro era uma pessoa considerada no local.
Um húngaro caçador de vampiros subiu à noite ao campanário da igreja, perto do
cemitério, a fim de espiar a saída do vampiro, a quem roubou a mortalha o que
provocou uivos de revolta do vampiro. O húngaro convidou-o a vir buscar o seu
fato de defunto e, quando este fez menção de subir ao campanário, o húngaro
deitou-o da escada abaixo e cortou-lhe a cabeça com a ajuda de uma pá.
Sjonica:
Uma noite, um homem chamado Ibro armou-se de uma faca e foi na mira de um
vampiro. A luta não durou quase nada e o morto-vivo escapou-se. Perto da ponte
da aldeia o homem volta a apanha-lo, apunhalando-o. No dia seguinte, no sítio
onde o vampiro fora ferido, apenas foi encontrado um pouco de sangue, e na
lâmina do punhal alguém escreveu uma oração em turco.
Paris,
1310: A seguir ao concílio de Troyes, em Maio de 1310, Filipe O Belo fez exumar o cadáver de Jean de
Turo, construtor da torre, e iniciado no «Le Temple»[40][40], mandando lançar ao fogo o seu corpo um
século depois da sua morte.
Boémia,
em Blow, perto de Cadar-1337: Manifestações vampíricas no claustro de
Opatowicze.
Boémia,
em Lewin-1345: Morte de uma mulher que se dedicava à feitiçaria (morte
natural ou suicídio), tendo sido sepultada num cruzamento de duas estradas.
Alta-Estíria,
em Gratz, 1451: bárbara de Cillei ou Barbe de Cillei - amada por Segismundo
da Hungria. O seu cadáver foi arrancado à morte graças ao ritual de Eléazar,
que detinha o poder Abramelin o Mágico. Shéridan le Fanu inspirou-se em bárbara
de Cillei para o personagem principal da sua obra-prima Carmila, o Drácula feminino.
Transilvânia,
Curtes de Arges-1476: Vlad Draculya – Senhor da Valáquia, rei dos vampiros
e cavaleiro da Ordem do Dragão foi enterrado na ilha de Snagov, na Romênia.
Segundo investigações arqueológicas recentes, o seu túmulo encontra-se vazio.
Morávia,
em Egwanschitz-1610: Manifestações de vampiros anos a fio.
Cracóvia,
Fevereiro de 1624: Mulher vampiro em Clapardia, perto de Cracóvia.
Istrie,
em Khring (ou Krinck)-1672: A 17 milhas de Laybach, no ducado de
Miterburgo, um certo Giure Grando foi enterrado no cemitério local e atormentou
durante longo tempo as gentes daquela região.
Hungria,
Medreiga (Medwegya)-1690: Arnold Paole, heiduque de Medreiga, foi
importunado por um vampiro nos arredores de Casanova, nas fronteiras da Sérvia
turca. Afirmou que só depois de Ter ido ao túmulo do vampiro, comido terra do
sepulcro e esfregado o corpo com sangue daquele, se viu livre de tal
obsessão...
Pouco tempo depois morreu num acidente.
Dias depois de ser enterrado, fenômenos de vampirismo aconteceram na aldeia. O
corpo foi desfeito mas estava perfeitamente conservado; porém os fenômenos continuaram!
Arnold Paole viria a localizar mais
dezessete cadáveres de heiduques iniciados em vampirismo. Um verdadeiro desfile
de cavalaria das trevas.
Comuna
rural de Metwett sobre Morava-1731: Treze óbitos em seis semanas. São
acusadas duas mulheres, mortas há pouco tempo, que durante a sua vida se
dedicaram ao culto do vampiro. Miliza, que morreu em idade avançada, e Stanno
ainda jovem. A primeira chegada de Montenegro (ocupada então pelos turcos),
onde fora contatada por um vampiro. A Segunda vinda da Turquia.
Hungria,
Kisilova, a três léguas de Gradish-1738: Um vampiro de nome Peter
Plogojowitz espalhou o terror em 1738 na aldeia de Kisilova. Morreram nove
pessoas em oito dias.
Banat,
Transilvânia-1755: Uma aldeia de Olmütz é citada, por um escritor, pelos
numerosos casos de vampirismo aí ocorridos.
Sérvia,
em Novi-Bazar-1827: As crônicas da época falam de fatos concretos passados
com vampiros, sem contudo darem pontos de referência.
La
Pierre-Sèche, perto de Salbris, França: Um dos casos mais espantosos
relativos a um casal: Paul de Gièvres e Virginie Blanchet, cujo túmulo está
visível à beira do lago de Sologne.
Tucchla
(tuchela)-1873: O vampiro era o senhor ilustre da aldeia: Nicolai Macevko.
District
de Stry-1873: Na sequência do caso de vampirismo de Tucchla, o povo do
distrito de Stry dirigiu-se (ao fim de se registrarem várias mortes) a um
túmulo suspeito em Slavka, destruindo o cadáver.
Sérvia,
Pléternika-1888: Manifestações sangrentas de um vampiro, que foi abatido
pela gente da aldeia.
Hungria,
Krasznahorta-18...: No distrito de Rozsnyo, junto à pequena aldeia de
Palotz, ergue-se o castelo de Krasnahorka. Em 1241, um pastor descobre uma
pedra singular assim como um pequeno tesouro com o qual fez construir um
castelo. Numa das salas, num caixão de vidro, está uma mulher vestida de preto,
não reduzida a pó, com o braço direito ligeiramente levantado e o dedo
indicador misteriosamente apontando...
Romênia,
Crassova-1889: Trinta cadáveres foram trespassados por estacas no
seguimento de manifestações vampíricas.
Transilvânia,
Curtes de Arges 19...: Narração de Tinka, velha cigana de pequena aldeia de
Capatineni, junto ao castelo de Drácula (narrado ao historiador Florescu). Logo
a seguir à morte de seu pai se aperceberam estar-se na presença de um vampiro,
uma vez que não se lhe manifestou qualquer rigidez cadavérica. Segundo Tinka,
atravessaram-lhe o coração com uma estaca.
Romênia,
Préjam (distrito de Vilces)-1902: Uma criança de 13 anos morto há pouco
tempo foi decapitado, depois de lhe trespassarem o coração.
Jugoslávia,
Kneginecc 1936: Diversos casos de vampirismo, atribuídos ao cadáver de uma
mulher nova, enterrada no século XIII no castelo de Herdody, em Varazdin.
Sérvia,
Kosovo-Mtohija, de 1936 a 1940 de 1947 a 1948: Emtre os Tziganes da
província de Kossovo-Métohija, aconteceram muitos casos de vampirismo.
França,
Nucourt, a 12 km de Gisors, século XIX: Descobre-se na torre templária de
Neaufles um cadáver exangue apresentando no corpo marcas que lembram as que são
feitas por tridentes. (Algumas pessoas localizaram este caso como tendo
ocorrido no século XVIII.)
Em 1974, três túmulos do cemitério de
Nucourt foram abertos e esvaziados.
Grã-Bretanha,
Londres, Highgate-1974: Sean Manchester acaba de publicar recentemente um
livro sobre o caso do vampiro de Highgate (este livro não está traduzido para
francês). Várias testemunhas falam de manifestações de origem vampírica, no
cemitério de Highgate. Fala-se de um misterioso caixão, vindo da Turquia para
Highgate, no século passado.
David Farrant, presidente da British
Psychic and Occult Societh, que numa noite celebrou o ritual de invocação ao
vampiro, esteve preso durante quatro anos. Repetiram-se os casos de vampirismo
em 1979. Segundo a imprensa britânica, surgiram mais casos de animais exangues
nas imediações do cemitério. Farrant está neste momento elaborando um livro
sobre o caso de Highgate.
Bibliografia
– Drácula, Bram Stoker; Marabout
– Carmila, Shéridan le Fanu
– Les Vampires, Tony Faivre; Edições Eric Losfeld
– Le Vampire, Ornella Volta; Jean Jacques
Pauvert
– Le
Vampirisme, Robert
Ambelain
– A la
recherche des vampires
– Les
Archives de Dracula, Raymond Rudorff; Denoel
– Je
suis une Légende, Richard Matheson; Denoel
– Le
visage de Feu, Jean-Louis Bouquet; Edições Robert Marin
– La morte
amoureuse, Théophile Gautier; Casterman
– Je suis
d'ailleurs, Lovercraft;
Denoel
– Smarra ou les
Démons de la Nuit, Charles
Nodier; Ponthieu
– lnfernália, Charles Nodier; Belfond
– Lord
Ruthwen ou les Vampires; Ladvocat Li- braire.
– Malédictions et
Violations de Tombes, André Parrot, Paris 1939
– Erzsébet
Bathory, la comtesse sanglante, Valen- tine Penrose; Mercure de France.
– La Comtesse
de sang, Maurice Perisset; Pygma- lion
– Loups-garous
et Vampires, Roland Villeneuve; J’ai lu
– A la
recherche de Dracula, Florescu Radu; Ro- bert Laffont
– Le culte du
vampire, J ean-Paul
Bourre; Edições Alain-Lefeuvreo
– Dracula et
les vampires, Jean-Paul Bourre; Edit. du Rocher
– Le Musée des
vampires, J. L.
Degaudanzi; Henri Veyrier
– Histoires de
vampires, Roger
Vadim; Ed. Robert Laffont
– Chateau des Carpates, Júlio Veme; Livre de poche
– Histoires de Mors-vivants, Anthologie du fantastique; Presses
Pocket
– The vampire’s
bedside companion, Peter
Underwood; Coronet Ed., Londres
– Le vampire
en Europe, Montague
Summers.
– Traité sur
les apparitions des esprits et sur vampires ou les revenants de Hongrie, de
Moravie, etc.,
Dom Augustin Calmet, Paris, 2.2 vol., 1751
– Histoires des vampires e Spectres malfaisants Examen du
Vampirisme, Collin de Plancy, Paris 1820
– La Crainte des Morts, Sir J ames George Frazer, 3.º volume
com prefácio de Paul Valéry, 1934; Ed. Libraire Orientaliste.
– A dream of
Dracula, Léonard
Woolf; Boston
– Histoire des
Moines de Syrie, Théodoret
de Cyr – 2. º vol.; Ed. du Cerf
– Chapitres
Théologiques, Syméon
le Nouveau Théologien; Ed. du Cerf
– Athos, Voyage à
la Montagne sainte, Jean
Biés; Dervy Livres
– Là Haut, J. K. Huysmans; Ed. Casterman ampire,
Scott Baker; Seghers
– Dhampire, Scott Baker; Seghers
– Un Vampire ordinaire, Suzy
McKee Chamas; Robert Laffont
– Mademoiselle
Christina, Mirces
Eliade; L 'Nerne
– Dracula, Bram Stoker, bande dessinée de lo Fernandez; Campus
Ed.
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La deux fois morte, Jules Lermina, 1895; Chamuel
Ed.
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